Não há glamour no estrelato de Linda Lovelace, atriz reconhecida pela performance sexual no longa-metragem Garganta Profunda (1972). Os anos 70 representam um marco na indústria pornográfica e Garganta Profunda talvez seja a melhor representação dessa “aparente” descoberta de um grande mercado. Mas para Linda, o que poderia ser sinônimo de sucesso tornou-se uma grande frustração, potencializada pela ganância de seu marido, Chuck Traynor.

A produção Lovelace (2013), retrata bem a entrada de Linda na indústria pornográfica mas, principalmente, a relação conflituosa que teve com os pais e com o primeiro marido. Chuck (Peter Sarsgaard) é o responsável por retirar Linda Lovelace (Amanda Seyfried) do universo angelical no qual é retratada no inicio do filme. Condenada por ser recatada pela principal amiga, Linda encontra em Chuck, a possibilidade de constituir sua própria família e sua condição de servir aos desejos do marido é levada ao extremo.

Punida constantemente pela mãe e ignorada pelo pai, Linda Lovelace é conduzida ao set de filmagem por Chuck em uma condição que, aparentemente, desconhecia as intenções do filme. Contudo, sua ingenuidade dá lugar a uma performance que surpreende à todos. A partir de então, Linda encarna o status de mulher objeto, sendo constantemente agredida e violentada pelo marido, especialista em usá-la para financiar uma vida de vícios.

Com uma boa condução, o filme joga toda a responsabilidade do sofrimento de Linda nas costas de Chuck, um aproveitador sem escrúpulos que não difere tanto dos demais personagens que representam a indústria pornográfica como Hugh Hefner, latifundiário que não dispensa coelhinhas em sua propriedade e, dos produtores que arrecadaram 600 milhões com o filme mas foram capazes de pagar apenas 1.250 dólares à Chuck pelo cachê da performance de sua esposa.

Não há qualquer laço de amor na biografia de Linda Lovelace, que conta com pouco apoio para se desvencilhar dos maus tratos do marido. Em um diálogo revelador, a mãe não poupa a filha de sua opinião: “Se, ele te bateu é porque você deu motivo”. A opinião é cercada pela repressão dos pais à uma geração marcada por um processo de rebeldia posterior aos acontecimentos de Maio de 1968.

Com uma direção de fotografia que apela para ruídos e imagens que remetem ao Super 8, o filme adota a marca dos anos 70 desde a concepção visual à sonora, composta por uma boa trilha-sonora. Apesar do aspecto unilateral, Lovelace é uma boa biografia, presa as dificuldades da passagem de Linda na indústria pornográfica. Ao término é fácil constatar que a vida da personagem tem marcas profundas e que em nada lembram laços de amor.

Assista ao trailer de Lovelace

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