Pain e Gain inspira-se na história real de Daniel Lugo (interpretado por Mark Wahlberg), um fisiculturista e instrutor de academia na Flórida que se juntou a amigos de musculação para praticar diversos crimes com intenção de enriquecimento e ascensão social. A jornada inicial da “Sun Gym Gang” foi o sequestro e subsequente extorsão de um empresário para fazê-lo passar-lhe todos seus bens financeiros. No filme de Michael Bay, Lugo se junta a Adrian Doorbal (Anthony Mackie) e Paul Doyle (Dwayne Johnson) – este personagem parece ser uma condensação de três membros reais da gangue, Carl Weekes, Jorge Delgado e Mario Sanchez. Se sentindo desmotivado e desvalorizado com sua condição financeira e social, Daniel Lugo adota ícones como Scarface e Michael Corleone de inspiração para seguir o “sonho americano”, e quando convence os amigos do mesmo sua jornada começa.

Sob as ordens do inglório Michael Bay, o filme se estrutura como uma viagem de muitas sensações e frenetismo. A montagem ágil, os movimentos de câmera acrobáticos e as cores quentes pintam uma Flórida que ressona com a gangue de Lugo e que parece impulsioná-la em seus intentos. Boa parte dessa estética nervosa vem da veia videocliptica de Michael Bay como pode ser visto, por exemplo, em Bad Boys. No fim das contas toda a parte técnica parece amparar com certa harmonia perturbadora toda a loucura na qual o roteiro não economiza.

Ao construir o personagem de Lugo todo em torno da grande obsessão pecuniária americana, o roteiro parece voltar a cutucar as feridas do american dream.  Acompanhando a história pela perspectiva dos bombados somos expostos a um punhado de situações extraordinárias, elaboradas na linguagem rápida do filme e mergulhadas em uma inclinação retratativa cômica e crítica. É possível ver com clareza, olhando de dentro da rodinha dos marombados, a sua condição humana deturpada pela América.

A partir daqui, algumas aferências com a história real e reflexões tocarão em momentos do filme e portanto teremos spoilers.

Entretanto, me pareceu inevitável trazer ao assunto um aspecto maior que ronda esse filme e me acossou logo depois de seu término. E a história real? Em vários momentos da narrativa hiperbólica de Bay, passam diante de nossos olhos momentos simplesmente absurdos do plot. Endossados algumas vezes pelo surgimento de legendas (por exemplo: “Isso ainda é uma história real”), essas situações normalmente levantam a clássica suspeita: será que isso aconteceu de verdade? Enfim, sim, o filme tem diversos acontecimentos que não correspondem á aparente realidade, mas muitos outros, por mais bizarros que pareçam são verdadeiros.

Sem pesquisar muito, é possível descobrir que familiares das vítimas da “Sun Gym Gang” e Marc Schiller – Victor Kershaw no filme -, ficaram extremamente descontentes com o longa. Sua principal alegação, vai em uníssono no sentido de que este teria feito os membros da gangue criminosa parecerem divertidos e trapalhões da maneira mais descontraída que se possa encarar um contraventor. Schiller, o sobrevivente da tortura, extorsão e subsequente tentativa de homicídio da gangue, foi veemente em sua crítica, considerando a comicidade da narrativa como uma atrocidade.

Assim como no filme, a gangue além de praticar os já supracitados delitos contra Schiller, também cometeu dois assassinatos seguidos de esquartejamento e ocultação de cadáveres. Ou seja, queira ou não, esta jornada extremamente violenta e brutal é representada no filme com despojamento e descontração. A partir daí, podem se seguir algumas reflexões e indagações. Quantas vezes uma história baseada em fatos reais foi pano de fundo ou mesmo mote principal de uma trama cinematográfica e teve sua narração trajada em escolhas estéticas, técnicas e conceituais que se não condizem com a realidade, ou a subvertem, poderiam ou de fato ofenderam os indivíduos envolvidos? É ético com os envolvidos reais que a arte se aproprie dessas realidades para manuseá-las?

Certo mesmo é que Pain & Gain está longe de ser o primeiro filme em que mortes e violência acontecem para fomentar a narrativa e são filmadas em margem de comicidade e ou descontração para convergir com os propósitos narrativos do filme e ornar com sua entoada estilística. Então se há alguma classificação para o que foi feito no mais recente filme de Michael Bay é a de perpetuador.

O caso desse filme me parece uma exceção só até o ponto em que foram dados os créditos ás ocorrências reais e a proximidade com todos os envolvidos pelo fator temporal, afinal afora as vítimas mortas pela gangue, os demais participantes dessa história ainda vivem. Dois membros da gangue, por exemplo, condenados á morte, ainda aguardam pela execução. Ademais, livremente baseada em fatos reais ou não, a história não me parece tomar partido dos criminosos. Mesmo o voice-over excessivo que acompanha quase todas as cenas parece ter um propósito reverberante na construção dos personagens. Bay poderia ter optado por contar essa história a partir da ótica de Schiller, e aí provavelmente não haveria espaço algum pra tomada cômica e tropical de Pain & Gain. Mas sua opção foi por olhar da perspectiva dos fisiculturistas. Como dizem os créditos, o filme é baseado em artigos de revista. O que chamou a atenção foram as peculiaridades desse caso. Considere que sim, é fato que os membros da gangue usaram roupas especiais numa das tentativas de sequestro de Schiller; considere que também é baseado em realidade a quadrilha ter um carro que habitualmente não pegava; também é fato que uma das vítimas dos marombados morreu acidentalmente por excessivo uso de tranquilizante; dentre outras situações.

Michael Bay e sua equipe se apropriaram do que havia de mais distinto e peculiar em toda essa história e dessa ótica fica fácil perceber porque ele construiu a partir delas uma comédia de humor negro. Partindo disso era uma questão de criar mundos psicológicos pra esses personagens. E cada uma de suas ações, seus diálogos, seus comportamentos, converge numa convincente visão crítica de uma gangue de marombados ingênuos, burros e alienados, reféns de uma sociedade que dissocia, discrimina, incentiva a disputa, a competição e a autoafirmação. O diretor talvez não tenha escolhido a perspectiva de Schiller porque não é a história como num resumo de rodapé de jornal que lhe interessa. Foram as particularidades e como elas poderiam lhe servir para alegorizar alguma coisa. Se esta visão elaborada não encontra correspondência com a realidade, com os verdadeiros criminosos, dificilmente saberemos, mas Michael Bay construiu com sucesso sua fábula violenta sobre a perversidade do american dream. No começo dos créditos finais, temos uma sequência de elipses que mostram imagens pertinentes ao caso. Há armas, drogas, fotos dos reais envolvidos, de strippers, fisiculturistas, etc. Pode ser apenas um sumário do caso, ou pode ser uma síntese da delinquência alimentada pela América.

Assista ao trailer de Pain e Gain

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