Uma vez sonhei que estava fazendo um filme onde eu filmava a reação das pessoas em uma platéia. No sonho me pareceu uma idéia genial. No mesmo dia, quando acordei, uma amiga me pediu uma sugestão para um curta que ela precisava criar para um para um curso que ela estava fazendo. Resolvi contar essa que eu tinha acabado de sonhar. Quando fui escrevendo e descrevendo a idéia, fui percebendo que não era tão boa assim na vida real como era no sonho, pelo menos foi o que eu pensei naquele momento.

Eis que algum tempo depois descubro que alguém já teve essa idéia, ninguém menos do que Abbas Kiarostami, um dos melhores diretores da atualidade. E mais do que a simples idéia de filmar apenas a reação de pessoas que assistem a um filme, Kiarostami escolheu filmar rostos de mulheres iranianas (na sua maioria) assistindo a um filme baseado em um poema de uma poetisa iraniana sobre uma heroína com a qual as espectadoras acabam se identificando.

Kiarostami une aqui duas das principais características de sua obra, a ousadia em se explorar novas linguagens cinematográficas, sempre com uma serenidade de quem sabe o que está fazendo, mesmo que o esteja fazendo pela primeira vez; e a discussão da questão da feminilidade, principalmente no Irã, mas não apenas nele. Kiarostami costuma captar a profundidade da alma de suas personagens femininas como poucos.

Confesso que o filme não funcionou completamente para mim, em diversos momentos eu me pegava pensando em outras coisas e me distraindo, o que atrapalhou um bocado a experiência que é difícil de ser digerida. Mas apesar dessa dificuldade, eu imagino que quem consegue embarcar na história e nos semblantes apresentados pela câmera, tem uma experiência interessantíssima e bastante forte.

No fim das contas, o espectador gostando ou não da sessão, fica claro que estamos diante de alguém que não está acomodado com o mundo onde vive, de um diretor que ainda pensa o cinema e faz de tudo para fazer deste a experiência mais incrível possível.

Assista ao trailer de Shirin

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