O filme de Gabriel Mascaro veio em boa hora, pouco tempo depois de o governo regulamentar os direitos das domésticas. Muito se foi comentado a respeito disso, inclusive o assunto foi matéria de capa de algumas das revistas mais importantes do país.

A posição de empregada doméstica carrega junto de si uma porção de valores. A submissão ao patrão, a quem é paga para servir, muitas vezes a abdicação de liberdade para viver sua própria vida, nos casos onde a doméstica passa a maior parte do seu tempo, inclusive dormindo, na casa dos patrões e também a afetividade e cumplicidade muitas vezes cultivadas durante anos de trabalho com a mesma família.

Gabriel Mascaro distribuiu câmeras a diversos adolescentes que tinham empregadas em casa para que estes documentassem o cotidiano delas e posteriormente, a partir do material bruto, montou o filme. A idéia é interessantíssima por si só, aproveita-se da intimidade do jovem com a empregada para conseguir mostrar o mais transparente possível do mundo delas, e ao mesmo tempo coloca em jogo a questão onipresente da relação patrão-empregado.

A proposta faz lembrar do memorável documentário “Santiago” de João Moreira Salles, onde o diretor nos mostra os bastidores de um documentário que ele filmara com o mordomo anos antes, onde também a relação de “classes” aparecia. No caso de “Doméstica” de Mascaro não há mordomos, há empregadas e empregados domésticos o que claramente nos põe em um universo diferente de “Santiago”, porém que preserva similaridades na relação supracitada.

A estética obviamente é amadora, porém carrega em suas imagens tantas informações e reflexões, que talvez não fossem possíveis se feito de outra forma, que acaba se tornando um mero detalhe. No país onde existe o maior número de empregas domésticas do mundo, creio que seja um documentário que mereça ser visto.

Assista ao Trailer de Doméstica

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