Hollywood não é o melhor lugar pra gente feia ou normal. Se você for homem e não for bonito, tem que ser no mínimo charmoso ou engraçado; se for mulher sem beleza, só se salva se tiver o talento de Bette Davis ou Tilda Swinton, mesmo assim tendo uma área muito restrita de atuação. Gente ordinária não combina com comédias românticas, com contos de fada, com a jornada onde o troféu do mocinho necessariamente inclui a loira bonita e compassiva. Em resumo, pela lógica de Hollywood, gente feia e normal não tem qualidades suficientes para se tornar amável por si só e, portanto, suas histórias devem ser preteridas em nome dos “vencedores”, lindos e talentosos que habitam esse mundo idealizado.

Afetada por essa lógica, quando eu era pequena, decidi conversar sobre uma moça conhecida da minha família. “Nossa, mas ela é feia! Ela nunca vai arranjar namorado!”, disse ao meu pai. A lógica de formação de casal onde “linda-encontra-lindo-ou-charmoso-ou-engraçado” da televisão, filmes e revistas me parecia não somente óbvia, mas também como o único caminho para o amor. Foi então que ele me ensinou uma lição valiosa: “Ué, mas beleza não é tudo! Se fosse assim, feio não casava!”. Me pergunto como não conseguia postular que os casais feios que conhecia provavelmente se apaixonaram antes de ficar juntos; devia pensar que foi um acaso do destino, ou então que algum deles foi trocado por algumas cabeças de gado em transações de casamento arranjado.

Não duvido que Paddy Chayefsky, o roteirista desse delicioso Marty (1955), tenha tido o mesmo pensamento que meu pai quando criou essa historia de gente comum que também ama. O personagem homônimo é um açougueiro, sem beleza ou talentos notáveis, além de um bom coração e um caráter submisso. Com 34 anos, Marty é pressionado pelos clientes, pela família e pelos amigos a se casar; embora não falte vontade, a contínua frustração em encontrar “uma boa moça para casar” só causa sofrimento a ele. Não possuir o que as garotas querem, que basicamente se relaciona com o ser gordo, feio e por consequência esteticamente indesejável, é visto pelo personagem como barreira instransponível para encontrar um par.

Marty vai a danceterias, liga para moças, mas tudo parece em vão, já que o resultado sempre é a rejeição. Convencido pela mãe a sair para dançar, ele conhece Clara, uma professora de química que foi abandonada no meio de um encontro. A semelhança dele, não possui muitos atrativos além da doçura e inteligência, e uma química instantânea se dá entre os dois. O histórico de desprezo e solidão, a submissão à família, a identificação como “bagulhos” perante a sociedade, revela cada vez mais afinidades entre ambos. E daí previsivelmente se desenrola a singela história amorosa de ambos, ou ao menos o início dela.

O filme trata com carinho seus personagens em cada frame e fala, e as atuações são ideais para a história retratada. A simplicidade se torna qualidade com franqueza em que se retrata uma história tão humana, tão comum, com gente imperfeita que tanto parece ignorada. E assim, Marty se torna um alívio a todos aqueles que não aguentam mais tanta perfeição idealizada, e traz esperança de um amor possível para os “bagulhos” do mundo real.

Assista ao trailer de Marty

Anúncios