Poucos filmes me surpreenderam tanto nos últimos anos quanto O Som ao Redor de Kleber Mendonça Filho. Não é novidade utilizar o som enquanto propulsor de uma narrativa, seja em efeitos, diálogos ou na óbvia trilha-sonora. O próprio silêncio que por vezes não caracteriza a ausência de som é importante para a construção da linguagem audiovisual. A eficácia de Kleber Mendonça está em fazer com que o espectador perceba esse universo sonoro que circunda os núcleos dramáticos de sua obra. Por tal atitude, quem, ao menos, considera e percebe a importância do audio no visual sai completamente satisfeito da exibição.

O Som ao Redor baseia-se na relação entre diversos personagens de uma mesma rua, dividido em 3 capítulos a quebra é bem acentuada em antes e depois da chegada de um grupo de segurança particular que oferece proteção pela bagatela de R$20,00 por mês para cada morador. A rua poderia ser qualquer uma do país, mas localiza-se em Recife, Pernambuco. Os diversos personagens, se entrecruzam durante o filme e o som é fundamental para percebermos o quão próximos estão um do outro. O barulho da reforma na escola, da máquina de lavar, do cachorro se propagam pelas residências aproximando vizinhos divididos entre prédios e casas, cada qual com sua rotina.

Talvez o cachorro seja o melhor exemplo do quão incomodo um som externo pode ser, já que o mesmo dificulta o repouso de uma das personagens que decide jogar um tranquilizante enrolado em um pedaço de carne para apagar o animal. Em tal cena podemos exemplificar o lado cômico do filme, que conta com um ótimo roteiro, sutil em situações que facilmente arrancam sorrisos da platéia, como no caso da mesma personagem, usuária de maconha e que esconde o feito da família ao fumar e usar um aspirador de pó para recolher a fumaça. Kleber foi inteligente ao estruturar seu roteiro e tornar o filme próximo do real, seus atores, bem dirigidos, parecem de fato, moradores daquela rua.

O ritmo da obra é fantástico, um casamento perfeito entre roteiro e edição. Mesmo sendo fundamental, o som direto falha em alguns diálogos, difíceis de serem interpretados, mas no geral tornam a experiência do filme muito boa principalmente pela ambiência que provocam. Assistir o Som ao Redor é como passear por uma rua de uma grande cidade, ouvimos o cachorro da vizinha, carros passando pela rua, enfim imergimos em um cenário que seria a grande façanha do 3D. A plenitude do audiovisual e da técnica acima das firulas!

Assista o trailer de O Som ao Redor

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