Cena de A Separação (Asghar Farhadi, 2011)

            Ainda que nesse ano o cinema iraniano tenha sido agraciado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, com o elogiadíssimo A Separação (Asghar Farhadi, 2011), o cinema do Irã vem chamando atenção do público cinematográfico desde o início dos anos 90, mantendo-se como uma das vanguardas do cinema mundial nos últimos 20 anos. Desse período, pode-se destacar as obras de Abbas Kiarostami (Onde fica a casa do meu amigo? [1987]; Close-up [1990]; Gosto de Cereja [1997]), Mohsen Makhmalbaf (O Ciclista [1987], Um Instante de Inocência [1996], A Caminho de Kandahar [2001]), Samira Makhmalbaf (A maçã [1998]), Bahman Ghobadi (Tartarugas podem voar [2004] e Jafar Pahani (O Balão Mágico [1995]; O Círculo [2000]; Isto não é um filme [2011]). Ainda que cada diretor tenha as suas peculiaridades, algumas caracterísicas os unem e fazem do cinema iraniano uma proposta estética que vem encantando platéias de todo o mundo: a maneira contemplativa de se fazer cinema, o ritmo lento de seus filmes, acompanhando o cotidiano de seus personagens e um hiperrealismo de suas cenas, com óbvia influência do movimento neorrealista italiano, fazendo de seus filmes quase documentários, exibindo visceralmente a realidade do país e do povo iraniano, sobretudo os habitantes das vilas do interior.

            Se o cinema iraniano só alcançou e encantou platéias do mundo todo a partir apenas dos anos 90, essa sua estética própria e bastante característica remota das décadas 60 e 70, com quatro filmes, ainda que pouco conhecidos do público em geral, que são nitidamente os embriões da proposta iraniana de cinema que tanto barulho faria na última década do século XX. O primeiro deles, o curta metragem A Casa é escura (Forugh Farrokhzad, 1963) é um documentário sobre o cotidiano de uma colônia de leprosos, onde se vê claramente a captação visceral das imagens, que tanto seria realizada pelos cineastas contemporâneos trinta anos depois. O filme seguinte, A Vaca (Dariush Mehrjui, 1969), retrata o ritmo e o dia a dia de pessoas comuns no interior do Irã, tema que seria bastante comum nos filmes de Mohsen Makhmalbaf e de sua filha, Samira Makhmalbaf. Entretanto, é na obra de Sohrab Shadi-Saless onde todos os elementos presentes no cinema iraniano dos anos 90 e 00 já estariam amplamente difundidos e desenvolvidos de maneira magistral.

Sohrab Shahid-Saless
Sohrab Shahid-Saless

               Sohrab Shadi-Saless nasceu em Teerã em 1943, estudou cinema em Viena e Paris e no Irã filmou dois longas metragens (inéditos no Brasil) A Simple Event (1973) e Still Life (1974), antes de cair em desgraça com o Xá e se exilar na Alemanha em 1976. Na Alemanha, trabalhou como cineasta até 1991, realizando um grande número de filmes que ajudariam no desenvolvimento do Novo Cinema Alemão. Depois, se mudaria para Chicago, vindo a falecer em Washington DC em junho de 1998. Apesar de seu trabalho ser pouco discutido nos dias de hoje e sua carreira no Irã ter sido curta, Sohrab Shahid-Saless é considerado o pai do cinema iraniano contemporâneo, os dois filmes que rodou no Irã são considerados grandes marcos do cinema deste país e, como seria reconhecido pelo próprio Abbas Kiarostami, seriam umas das maiores influências para o seu primeiro longa metragem O Viajante (1974).

          Shahid-Saless emergiu como um cineasta iraniano de estilo distinto. Adotando um estilo quase documental, ele registra momentos rotineiros na vida de pessoas comuns. Em A Simple Event (1973), o de uma criança de dez anos e suas tarefas diárias, em Still Life (1974), a de um casal de idosos à beira da aposentadoria. Sobre A Simple Event, Shahid-Saless diria “Não há enredo. É apenas um relatório sobre as atividades diárias de um menino”. Este filme retrata a a vida de um garoto de dez anos com o seu pai e sua mãe na costa norte do Irã. Sua vida é bastante austera, ele ajuda seu pai na pesca ilegal de peixe, sua mãe está doente, os três vivem em apenas um quarto e ele só come pão e leite todos os dias. Neste filme, Shahid-Saless, trabalhou apenas com atores não-profissionais locais, construindo o filme com imagens cruas e realistas que correspondiam ao fluxo temporal da vida rural, utilizando planos e ações longas (duração real das ações, como por exemplo, as cenas das aulas na escola), sem close-ups, repetidos muitas vezes (todos os dias ele leva os peixes do seu pai e traz água para a sua mãe). Por todo o seu encanto lírico, A Simple Event (1973) é considerado um prelúdio ou uma preparação para o que viria ser a maior obra prima de Shahid-Saless e umas das cinco maiores obras primas do cinema iraniano, Still Life (1973), premiado com o Urso de Prata de melhor direção e prêmio da crítica no 24 º Festival de Cinema de Berlim em 1974.

Cena de Still Life (Sohrab Shadi-Saless, 1974).

            Em Still Life (1974), Shahid-Saless mais uma vez filma a rotina de pessoas comuns; neste filme ele retrata a vida de um casal de idosos que mora à beira de um trilho do trem na região norte do Irã. Ela faz tapetes persas e cuida da casa (que é apenas um quarto, como em seu filme anterior) e ele trabalha como sinaleiro em um cruzamento ferroviário. O ritmo do filme é o mesmo do casal, lento, e assim, como em A Simple Event (1973) as ações retratadas no filme tem a sua duração real, como por exemplo, as cenas das refeições, o caminhar lento até o cruzamento, a preparação para dormir. Entretanto, diferente de A Simple Event (1973), onde não há close-ups e ficamos sempre distantes das cenas, em Stil Life (1974), a câmera está mais próxima, vemos os detalhes das ações e das expressões do casal de idosos, somos mergulhados dentro do seu cotidiano, dentro do seu ritmo de vida, como se fossemos convidados a acompanhar e compartilhar dos seus afazeres. Dessa maneira, temos a sensação de sermos observadores que estão dentro da casa, como se fossemos uma das paredes daquele casebre, como se fossemos parte daquele quarto e por isso criamos grande identificação com aquele casal e também participamos de suas lentas refeições, também nos preocupamos com a magreza de seu filho que está no exército e nos revoltamos com a burocracia intolerante que leva à aposentadoria daquele senhor, ainda que essas todas cenas sejam cruas, frias, calmas, lentas e contemplativas, como todo o cinema iraniano que viria depois.

           Ainda hoje, infelizmente, as raízes do cinema iraniano são pouco conhecidas, dada a revolução islâmica de 1979, muitas coisas se perderam e nomes como o de Sohrab Shahid-Saless, e de outros diretores do período pré-revolucionário, como Bahram Beizai e Ebrahim Golestan permanecem esquecidos. Espera-se que um dia esses filmes possam ser redescobertos para se perceber que o alto grau de lirismo presentes nos filmes iranianos de hoje, contido no retrato inocente de suas crianças, na humildade do seu povo, no seu jeito sofrido de levar a vida e no seu apego aos pequenos detalhes, é uma marca histórica de seu precioso cinema.

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