David Cronenberg não é um cineasta simples de ser digerido. O canadense tem algumas características básicas que ajudam no entendimento de alguns temas que permeiam sua obra, entre as principais está o estranhamento. Seus filmes, em sua maioria, usam situações bizarras na discussão de temas existenciais e psicológicos. A Mosca não é apenas um filme sobre uma mutação genética, Existenz não é apenas sobre virtualização e Senhores do Crime não é apenas sobre a máfia russa. Presente em tais contextos está o homem e sua capacidade de adequação a situações extremas. O mesmo acontece em Cosmopolis, último filme do diretor baseado no romance de Don DeLillo.

Na posição de protagonista temos o bilionário Eric Packer (Robert Pattinson), um homem disposto a atravessar uma cidade turbulenta por um corte de cabelo. Packer, decide enfrentar o trânsito caótico a bordo de sua limousine, local onde recebe diversos funcionários e convidados em uma jornada por diversos temas. O primeiro é econômico e envolve um colapso financeiro prestes a eclodir. Packer, um especialista em antever os movimentos do mercado sofre durante o filme por não conseguir prever o próximo passo, seu caminho em parte é um protesto contra sua limitação. O segundo é sexual, Packer não economiza esforços para atrair Elise (Sarah Gadon), ela no entanto, reluta contra suas investidas sexuais. Elise ao contrário de outras, não entra na limousine, ou melhor consegue retirar Packer de sua restrição espacial.

Entre as discussões profissionais, importantes ao demonstrarem como números e interesses financeiros são destrutivos, está o ambiente externo, controlado por Torval (Kevin Durand), segurança de Packer, que a todo momento o aconselha a voltar atrás, servindo de contraponto ao desejo do bilionário. Contudo Eric segue em frente, dentro de sua bolha, enquanto a cidade desmorona pela janela de sua limousine branca. O que vale é o interesse individual privado frente ao coletivo público. Mas ninguém pode ficar alheio a resistência de alguns grupos sociais e Packer encontra em André Petrescu (Mathieu Amalric) a humilhação e exposição construídos pela mídia.

Diversas cenas de Cosmopolis são memoráveis por apresentarem uma leitura que, por vezes, é subjetiva ao espectador. Cronenberg não é claro em sua construção e exige atenção para que as peças de sua obra adquiram significado. Estamos frente a frente com o filme do novo milênio, nada diferente do anterior. Em outro final nada convencional, temos a revelação do que levou Eric ao fracasso, seu perfeccionismo o enganou a medida que deixou a assimetria e suas imperfeições de lado. O filme e o mundo do diretor canadense também não são simétricos, se o fossem não restaria outro espaço para Cronenberg senão o da Sessão da Tarde.

Assista ao trailer de Cosmópolis

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