A incursão de diretores estrangeiros por terras ianques não é nenhuma novidade no mundo cinematográfico. Nos últimos anos, nomes como Paul Verhoeven, Guilherme del Toro, Alejandro Gonzalez Iñarritu e os brasileiros Walter Salles e Fernando Meirelles tem deixado de filmar em seus países e utilizando a língua inglesa em seus filmes com a presença de atores consagrados norte-americanos, incursionam pelos Estados Unidos para conseguirem elevados orçamentos e terem a chance de dirigirem super produções. Até mesmo monstros consagrados do cinema, como Roman Polanski e Michelangelo Antonioni passearam por terras norte-americanos no passado em busca de mais dinheiro, novos públicos, novos ares e novas fronteiras. Com o diretor chinês Wong Kar-Wai, um dos maiores estetas das relações amorosas humanas no cinema, não foi diferente. Depois de se consagrar internacionalmente com pérolas como Felizes Juntos (1997), Amor à flor da pele (2001) e 2046 (2004), Wong Kar-Wai foi aos Estados Unidos e contanto com um time de atores de peso (Jude Law, Rachel Weisz, Natalie Portman, David Strathairn) e tendo a cantora Norah Jones como atriz principal, construiu o seu primeiro filme em língua inglesa, Um Beijo Roubado (2007). O filme basicamente conta a história de Jereym (Jude Law), dono de um bar em Nova York, e Elizabeth (Norah Jones). Ambos sofrem com as dores de um abandono amoroso. Ambos se conhecem no bar de Jeremy e nasce entre eles uma relação de amizade, amor e cumplicidade. Elizabeth, ao contrário de Jeremy, não se entrega a melancolia e decide cruzar os Estados Unidos, estabelecendo contatos com vários tipos irreparáveis que, cada um a seu modo, vivem diferentes tipos de perda.

Para os fãs inveterados dos trabalhos anteriores de Wong Kar-Wai realmente o filme não empolga. Não há a mesma vibração de seus filmes anteriores e nem a mesma complexidade de suas histórias anteriores, que fazia o público mergulhar profundamente nos sentimentos dos personagens. A história central de Um Beijo Roubado é relativamente simples, às vezes parece até um pouco forçada (Norah Jones como protagonista não empolga mesmo) que acaba se diluindo pelas outras duas histórias secundárias do filme que realmente são mais interessantes que a história de Elizabeth, sobretudo a angustiante história do policial Arnie (David Strathairn) e sua ex-esposa Sue Lynne (Rachel Weisz), já que a história da jogadora de poquer Leslie (Natalie Portman) poderia ser melhor desenvolvida. Além disso, essas histórias paralelas mostram que o sonho americano do american way of life pode terminar por conta da solidão e da condenação por amores impossíveis. Entretanto, ainda que este filme realmente esteja alguns degraus abaixo dos seus filme anteriores filmados em Hong Kong, Um Beijo Roubado é claramente um filme de Wong Kar-Wai. E um bom filme. Todos os principais elementos que o consagraram estão ali, os constantes desencontros amorosos, as cenas em slow-motion com closes dos rostos dos personagens em busca de sua essência,  o brilhante uso da trilha sonora (Ry Cooder, Ottin Reading, Norah Jones, Amos Lee, Gustavo Santaolalla, Cat Power, essa última fazendo também uma pequena ponta no filme), o explosivo uso das cores e os inusitados posicionamentos de câmera. Por fim, Um Beijo Roubado, ainda que não seja uma grande pérola cinematográfica, acaba por se tornar um excelente filme para se assistir a dois, seja pelo clima romântico criado por alguns pequenos detalhes poéticos do seu roteiro e pelo seu final edificante e de redenção ou pelo tom sexy das lindas cenas sinestésicas que mostram sorvete derretendo deliciosamente sobre pedaços de tortas de blueberry. 

Assista ao trailer de Um Beijo Roubado

 

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