Se existe algo que difere essa análise das anteriores é minha relação com a obra. Acompanhei a distância a ideia da adaptação de On The Road desde os primeiros rumores, passando pela seleção do elenco e equipe técnica. Até que em 2010 estive presente no lançamento da biografia de Walter Salles, evento no qual foram mostradas imagens da pesquisa de campo que o diretor realizara para a composição do filme.

O desejo antigo sempre esbarrou na complexidade da obra. On The Road é um livro marco, cultuado por muitos, mas cuja leitura atual não desperta tanto interesse quanto para a geração do pós-guerra. Desbravar as estradas de carro perdeu aquele impacto, assim como andar a cavalo pelo velho oeste na ausência de John Wayne. Uma geração inteira que largou tudo e se aventurou por estradas está representada no filme de Salles, mas principalmente na obra de Kerouac.

O filme tem, essencialmente, dois eixos, o primeiro trata da amizade e é representado pela relação entre Sal Paradise (Sam Riley) e Dean Moriarty (Garrett Hedlund). Dois jovens que se conhecem e desenvolvem uma relação próxima a ponto de um sempre seguir o caminho do outro. Sal é o primeiro a deixar Nova York e colocar o pé na estrada para ir de encontro a Dean que posteriormente retribui a “visita” voltando para a grande maçã. A dupla compartilha mulheres, bebidas, drogas, momentos e a estrada, imensidão territorial que pode ser associada ao percurso da vida.

Dean é o ponto de interesse dos demais personagens, fruto de uma juventude transviada, é a imagem do malandro americano, de família desestruturada, mulherengo e a procura da própria essência. Todos o seguem, sejam as mulheres pelo seu encanto ou os homens pela sua companhia. Líder nato, o jovem consegue separar o recém casado Ed Dunkel (Danny Morgan) de sua esposa assim como Sal Paradise de sua mãe. Imã de geladeira, Dean cansa da estabilidade matrimonial quando deixa Camille (Kirsten Dunst) por Marylou (Kristen Stewart) e vice-versa. Se existe desequilíbrio e reviravoltas na narrativa, Dean Moriarty é o culpado.

Sal Paradise, alter ego de Kerouac tem o olhar do aventureiro comedido. Aos poucos nosso narrador se abre e nesse ponto temos nosso segundo eixo – A Liberdade. Tal está fora dos grandes centros urbanos, sua via é a estrada, percurso vasto onde encontraremos diversos personagens, todos presos à uma situação. Ninguém é livre mas todos buscam tal sentimento de alguma forma. A liberdade choca-se com valores morais, com a descoberta da sexualidade, das drogas e com o espaço do outro. Talvez Sal Paradise seja aquele mais próximo de atingir o conceito, personagem próximo de todos ele é o único que não está amarrado a algo ou alguém. Sua função de observador é privilegiada.

Tecnicamente perfeito, Na Estrada é um bom filme, porém jamais terá a essência do livro de Kerouac, seu grande problema foi ter nascido tarde. A obra toca pouco o espectador atual que não largaria seu GPS para se aventurar em qualquer BR esburacada da vida. Walter não fez seu melhor filme mas mostrou que mesmo na Modernidade Liquida, o asfalto ainda queima como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas.

Benzedrina na cabeça e uma câmera na mão!

Técnica

Roteiro – José Rivera e seu árduo trabalho na adaptação da obra de Kerouac. Alguns comentários negativos da extensão do filme. Pequenos trechos poderiam ser cortados mas tal responsabilidade pode ser dividida com a edição.

Edição – François Gédigier editor de Dançando no Escuro de Lars Von Trier fez um bom trabalho em Na Estrada. Percebi uma pequena barriga no final do filme que poderia ser cortada mas que não compromete a obra.

Direção de Fotografia – Eric Gautier é um dos melhores diretores de fotografia da atualidade. Enquadra e trabalha muito bem as angulações das cenas externas e internas. Conseguiu captar fotograficamente a essência do andarilho em Na Estrada assim como já o fizera em Na Natureza Selvagem.

Trilha-Sonora – Gustavo Santaolalla está com uma trilha instrumental mais discreta mas bem pontuada na obra. Santaolalla consegue imprimir melancolia com suas composições, tão belas que são perfeitas para os momentos de respiro.

Produção-Executiva – Francis Ford Coppola fez bem ao acreditar no projeto. Há anos tenta que alguém adapte a obra, Gus Van Sant foi um dos que desistiram.

Kirsten Stewart – ainda não conseguiu se desvencilhar do mesmo personagem, adolescente fragilizada, problemática. O papel foi muito bom em Na Natureza Selvagem, mas já está cansativo em sua carreira por portar-se sempre com os mesmos trejeitos.

Sam Riley e Garrett Hedlund – Os atores desenvolvem muito bem seus papéis. Destaque para Garrett que surpreende no papel de Dean Moriarty.

Viggo Mortensen – Viggo chegou com uma máquina de escrever debaixo do braço e encarnou Old Bull Lee (William S. Burroughs), seu personagem sobe a metade do filme.

Steve Buscemi – Apenas 5 minutos de atuação para o genial ator americano mostrar seu poder de mutação e versatilidade na terceira parte do filme.

Assista ao trailer de Na Estrada

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