Quando Tod Browning produziu o filme Freaks em 1932 criou uma obra ímpar em inúmeros aspectos. Utilizando-se de pessoas reais com deficiências reais, o diretor chocou as plateias da época, fazendo com que o filme ficasse apenas poucos dias em cartaz. O filme só voltou à tona na década de 60 em cineclubes e circuitos undergrounds. Só por esses três aspectos, já é possível dizer que o filme é maldito, cult e com forte caráter documental, e o filme consegue ser ainda mais que isso.

Logo no inicio do filme um letreiro nos alerta, um filme como esse jamais poderia ser repetido “graças aos avanços da medicina que cada vez mais impediam que deficiências como aquelas acontecessem”. É verdade, a medicina evoluiu e muito, mas apesar de diminuir drasticamente o número de pessoas com deficiências, não eliminou-as. Porém, ainda assim, o filme jamais poderia ser refeito, mas por questões éticas e culturais, principalmente.

Freaks nos apresenta os bastidores de um circo onde além do palhaço, da bela trapezista e do homem incrivelmente musculoso, encontramos também anões, pessoas com crânios incrivelmente pequenos, pessoas sem braços, sem pernas, sem braços e nem pernas, um homem magérrimo, quase um esqueleto humano, gêmeas siamesas, uma mulher barbarda, etc.

A trama principal mostra a bela trapezista junto ao homem musculoso tentando passar a perna no anão Hans, um homem inocente e com grande herança. Mas a principal mensagem passada pelo filme é a do preconceito.

Se hoje o preconceito é visto ainda por todos os cantos de diversas formas possíveis, podemos imaginar como era na década de 30. Os freaks, como são chamados, são ridicularizados o tempo todo pelas pessoas “normais”, chamados de monstros e aberração da natureza.

O diretor, desde o começo do filme, tenta passar a mensagem de que apesar das deficiências, são seres humanos normais, com sentimentos como todos os outros. Mas a ver pela reação que o filme obteve na época, infelizmente não obteve tanto êxito com sua tentativa, muito provavelmente mais pela cultura da época (que podemos ver no filme, era também muito mais machista) do que por outra coisa.

O filme surpreende pelo ótimo roteiro, atuações excepcionais (destaco aqui o casal de anões Harry e Daisy Earles), movimentos de câmera precisos e muito bem escolhidos pelo diretor e por cenas que hoje são clássicas do cinema como o apoteótico final e a cena do jantar, relembrada por Bertolucci em seu Os Sonhadores. We accept you, one of us!

Não faço ideia de quanto este clássico é conhecido hoje em dia, mas certamente merece ser visto e relembrado não só por sua mensagem, ainda atual. Mas sim por todos os outros aspectos que fazem deste clássico uma obra única na cinematografia mundial.

Assista ao trailer de Freaks

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