“Sou Feia Mas Tô Na Moda”, filme de Denise Cardoso, percorre os bailes de funk carioca durante um ano para documentar esse movimento, que conta com imenso apelo entre as classes menos abastadas e agora se expande rumo à “classe A” e ao exterior. Fugindo das armadilhas da vilanização ou vitimização de seus personagens, a diretora busca romper com os estereótipos que habitam o imaginário popular sobre os chamados funkeiros, e permite a observação destes por um novo prisma, muito mais humanizado. Da transformação do funk de um som fortemente inspirado no soul, datando de meados dos anos 70, aos bailes “country”, com luta entre gangues rivais, chega-se ao funk carioca como é atualmente conhecido, definido por Deise da Injeção como “funk do prazer”; e é aqui que Denise Cardoso foca seu filme: a sexualidade e a sensualidade do e no funk. O principal motivo de crítica ao movimento é motivo de orgulho para seus seguidores.

E, ao falar dessa característica, Denise acerta pela segunda vez: dá voz principalmente a funkeiras e bondes femininos. A já citada Deise da Injeção, Valesca Popozuda, Tati Quebra-Barraco (a quem pertence o bordão que dá nome ao filme), entre outras, colocam sua visão sobre a música que produzem. O funk, para elas, não é “apenas” música, mas uma ferramenta para o empoderamento feminino, emancipação do seu próprio desejo, meio de trabalho. É interessantíssimo observar como, através das suas letras, elas não só se tornaram mais cientes do controle que podem ter sobre sua própria vida e sexualidade, mas como também ele pode ser usado para alertar outras mulheres sobre esse mesmo poder que elas possuem, com impactos que se estendem à questão da violência doméstica e a comunicação entre mães e filhas sobre o sexo em si mesmo.

Uma questão importante é tocada pelo filme é o preconceito por trás da simples condenação do funk como música. Para isso, é interessante utilizar as falas de duas garotas entrevistadas, ao comentarem sobre um show de Tati Quebra-Barraco ao que compareceram, em um lugar de “rico”:

“[sobre como as pessoas de outras classes sociais mais elevadas os percebem] os favelado, os negrinho mesmo, né, e pra eles os funkeiro é ladrão. Nós fomos pra um show, outro dia, com a Tati, aí chegamos nesse show,e falaram assim ‘chegou os favelado’. Nós debaixo, jogaram jato d’água, eu virei e falei assim: ‘Lá na CDD, os favelado não joga água do prédio’. “

E outra garota complementa:

‎”Foi no Copacabana. Imagina, não foi o pessoal da boate, foi gente que tava acima, no prédio que tem a boate. Porque acha que porque a gente é favelado a gente não tem cultura, então eles acham que funk não é uma cultura. Falou em funk, vê logo: Cidade de Deus, os favelado.”

É bastante ingênuo que as pessoas percebam o funk como algo ruim apenas por suas letras supostamente promíscuas. Num país onde ainda triunfa o mito da democracia racial, essa percepção não poderia ser mais errônea: a questão de raça tem influência SIM no julgamento de valor que se faz sobre a música. Como o próprio Mister Catra expõe, a sacanagem da novela das oito não é censurada, mas o funk é. “Realidade não é crime, realidade não é sacanagem, todo mundo gosta de fazer amor”, afirma ele. Afinal, quais são os critérios que definem que uma obra seja moralmente condenável por seu conteúdo? Será mesmo que o fato de que os funkeiros constantemente constituírem a ameaça tripla “preto/pobre/favelado” não tem influência na condenação de sua música, enquanto diversas obras com conteúdo tão explícito quanto sejam amplamente aceito? É algo para se refletir.

E o mais interessante sobre o documentário é a lucidez dos próprios funkeiros sobre sua ação no mundo e a resposta dada por este. Para eles é claro os motivos da rejeição e/ou aceitação de sua música tem outras bases além da moral cristã ainda dominante, e impressiona que estejam muito mais cientes disso que aqueles que se consideram mais superiores e civilizados que o movimento que julgam. O morro que é filmado por Denise também se mostra muito mais inclusivo que o asfalto: há espaço para negros, brancos, magros, gordos, travestis. Tati Quebra-Barraco, por exemplo, está fora de todos os padrões de beleza, mas ainda assim tem voz, porque tem algo a dizer. As garotas entrevistadas se referem a ela com reverência, pois é ela a interlocutora de quem são e do que sentem, e não o ideal de beleza e moralidade nórdico-burguês que infestam os meios de comunicação.

O leitor pode não gostar de funk, pode abominar suas letras e achar seu som inaudível. Porém, o documentário de Denise Cardoso merece um olhar mesmo do mais intransigente dos homens.  O funk não é apenas sexo, diversão, violência (com os “proibidões”); é um reflexo de uma população abandonada à sua própria sorte, que só consegue ser reconhecida quando faz música com os valores burgueses, pra rico ver e achar bonitinho. Não é surpreendente que o Mc Malboro faça a declaração certeira, ao comentar sobre os proibidões:

‎”O que acontece, é muito mais cruel do que as músicas cantam, entendeu? Então as pessoas costumam discriminar as músicas, falar mal das músicas, mas só que esquecem que aquilo é uma realidade que tem que ser tratada. Eles preferem calar a boca do muleque a tratar o que eles vivem, e isso é muito ruim”.

Poder-se-ia comentar sobre a associação do funk com violência, com civilidade ou a falta dela, com a falta de cultura. Mas, independente do juízo de valor que se faça sobre o funk, certamente este documentário irá proporcionar momentos de reflexão sobre o movimento e quebras de paradigmas, indo muito além dos estereótipos. Imperdível.

Assista ao trailer de Sou Feia Mas Tô Na Moda

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