Roman Polanski e a Carnificina. Não, a referência não é autobiográfica e tampouco faz alusão à Charles Manson, algoz de Sharon Tate, esposa assassinada no final de década de 60. A vida de Roman Polanski foi motivo de livro mas a adaptação de seu último filme é baseada na peça teatral “Deus da Carnificina” de Yasmina Reza. Depois da adaptação primorosa em O Escritor Fantasma, Polanski retorna com um filme aparentemente simples, baseado em uma discussão entre dois casais.

Produção perigosa por centrar-se apenas em um ambiente, Deus da Carnificina é totalmente teatral, envolvendo quatro atores que formam dois casais antagônicos. O primeiro formado por Nancy (Kate Winslet) e Alan (Cristoph Waltz) visita Penelope (Jodie Foster) e Michael (John C. Reilly) na tentativa de resolver uma briga entre filhos. O espaço de resolução do conflito que normalmente seria a escola passa ao apartamento, setor privado. Nele apenas os pais dialogam, as crianças, principais motivos da reunião estão ausentes.

Nancy e Alan formam um casal mais centrado enquanto Penelope e Michael parecem mais abertos. O texto desenvolve bem a transição de todos os personagens ao papel de protagonistas dando voz a todos e, principalmente, apresentando as fraquezas e defeitos de cada um. O mais explicito talvez seja Alan e sua relação interminável com o telefone celular, já que ao mesmo tempo em que discute uma questão pessoal, não consegue se desvencilhar do ambiente profissional em nenhum momento. Enquanto Nancy parece conformada e envergonhada pelo marido, o outro casal o culpa a cada toque do telefone.

Um dos poucos ambientes que extrapola o espaço físico do apartamento é o corredor de saída. Nele Polanski efetuará a troca dos atos que ocorrem no teatro. A despedida é motivo de volta quanto o casal anfitrião oferece um pedaço de bolo ou uma bebida. A partir desse momento somos convidados a retomar a discussão que transforma-se em um bom estudo das relações humanas. O Big Brother do diretor polaco tem quatro finalistas e nenhum prêmio. As situações se tornam esdruxulas em um rápido período de tempo. O espaço privado faz com que as intimidades aflorem e a briga entre crianças passa a confusão entre adultos.

Polanski conta com 4 atores de ótimo nível mas corre riscos durante toda a produção. O filme pode ser classificado como médio se comparado à outras produções da vasta carreira do diretor enquanto ganha a mesma pontuação se também comparado aos filmes do mesmo gênero por perder intensidade em alguns momentos. Jamais será fácil prender o espectador em um único ambiente. Portanto dois aspectos técnicos são fundamentais quando já temos atores de ponta – o roteiro e a edição. O roteiro é a base do filme e os diálogos e situações devem sobressair na obra enquanto na edição teremos o ritmo que não deixará o espectador se perder na trama.

Apesar de não ser o melhor filme de Roman Polanski e figurar distante dos principais, Deus da Carnificina, demonstra o quão doentes estão as relações pessoais e, principalmente, as familiares. No filme os casais são permeados de futilidades enquanto se afastam dos filhos e da discussão principal. Ao final temos a impressão que nada se resolveu e que o circulo vicioso está prestes a recomeçar.

Assista ao trailer de O Deus da Carnificina

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