“Todo grande documentário tende à ficção, e toda grande ficção tende ao documentário”. Jean-Luc Godard

Em 1992, João Moreira Salles não era ainda um diretor experiente, havia dirigido apenas dois filmes e participado de mais alguns quando decidiu filmar um documentário sobre um homem que havia sido mordomo de sua família durante 20 anos, Santiago. Treze anos se passaram desde as filmagens e, apenas em 2005, o diretor voltou às imagens e construiu um filme.

Santiago era, sem nenhuma dúvida, um personagem interessantíssimo. Apesar de ter origem humilde, Santiago era uma pessoa viajada, viveu na Itália, na Argentina, no Brasil, falava pelo menos cinco idiomas e tinha uma cultura diferenciada. Ao longo de 30 anos, escreveu mais de 30 mil páginas catalogando e contando histórias sobre a nobreza do mundo desde tempos anteriores a Cristo. Dizia que eram seus companheiros.

João Moreira Salles, além de reconstruir o documentário outrora filmado, nos mostra também detalhes desta reconstituição. Mostrando-nos bastidores das filmagens, nos deixa cientes da montagem que ele gostaria que fosse feita no documentário inicialmente. Santiago repetia as histórias inúmeras vezes, mais alegre, mais triste, olhando para a câmera, olhando para o chão, com as mãos unidas em sinal de oração, como o diretor mandava. Com isso, podemos assistir a dois filmes diferentes. O primeiro sobre o Mordomo e o segundo sobre a montagem do filme, com revelações do próprio diretor.

O filme é todo em preto e branco, atenuando a poesia presente nos gestos e histórias de Santiago, que como João Moreira descreve, transforma boxeadores em gladiadores romanos e uma casa em um Palácio francês com sua imaginação. Uma pessoa solitária, que mesmo rodeado de gente por toda a vida, vivia em seu próprio mundo. Santiago diz mais de uma vez que, enquanto mordomo, levava uma vida não feliz, mas sempre contente.

Com os bastidores escancarados, vemos um João diretor muito frio, que dirige Santiago e seus devaneios como se fosse um ator, e este obedece, de cabeça baixa, às vezes fazendo um pequeno balé com as mãos entre um take e outro, mas tentando sempre fazer o melhor para o diretor, mostrando que a relação mordomo-patrão ainda estava ali, apesar de sua aposentadoria.

Em um dado momento do filme, vemos Santiago indagando para onde iriam aquelas histórias e registros quando ele se fosse, que se não fosse para alguém que gostasse deles (os nobres, sobre quem ele escrevia), que se queimassem. Os textos ficaram com João, que observa que, não fosse por Santiago, jamais conheceria aquelas pessoas e histórias. Ora, se não fosse por João, jamais teríamos a oportunidade de conhecer Santiago.

Assista ao trailer de Santiago

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