“- Comandante Hamilton, tenho a impressão que todo mundo morreu afogado…
– Não Datena, os bombeiros estão fazendo respiração boca a boca em uma mulher nesse momento.
– Por que não ta filmando!? Respiração boca a boca não é filme pornô! Focaliza! Focaliza!”

José Luiz Datena

Um jornalista ávido pela notícia. Um público ávido para consumi-la, devorá-la. Vemos isso todos os dias, na nossa televisão, nos nossos jornais, com uma variedade enorme de exemplos recentes: o caso João Hélio, o episódio Isabella Nardoni, o perverso assassinato de Eliza Samúdio, entre outros. Não faltam detalhes, sobram jornalistas contando os casos de maneira dramática, utilizando-se de emoções exageradas, destrinchando a vida das pessoas envolvidas, ramificando as histórias. E o público quer mais, sempre há espaço para a opinião de mais alguém, para mais uma polêmica. Em 1951, Billy Wilder (de Crepúsculo dos Deuses [1950] e Quanto Mais Quente Melhor [1959]), sistematizou toda essa “indústria da notícia” em A Montanha dos Sete Abutres, que apesar de ser uma pérola cinematográfica, foi um fracasso de público à época.

Neste filme, Wilder retrata Charles Tatum, um jornalista que depois de demitido de diversos jornais, chega ao Novo México pedindo emprego em um pequeno jornal em Albuquerque, sonhando em um dia poder voltar a um grande jornal de Nova Iorque. Passado um ano, Tatum encontra-se desmotivado, sem grandes notícias a tratar, até que, inesperadamente, um homem, Leo Minosa, fica preso após um soterramento em uma montanha quando procurava relíquias indígenas. Utilizando-se do poder da mídia, transforma o resgate de Leo em um assunto nacional, atraindo milhares de curiosos, que se estabelecem ao pé da montanha durante os dias do resgate de Leo, consomem produtos relacionados com a “tragédia”, com a vinda inclusive de um parque de diversões ao local. Para prolongar todo o circo, Tatum pressiona o engenheiro de obras a mudar a estratégia de resgate de Leo para que ele fique preso por dias e não apenas por algumas horas. Pressiona também o xerife local, dizendo que se ele estivesse ao seu lado, Tatum escreveria para que ele fosse reeleito e convence Lorraine Minosa, esposa de Leo, uma mulher inescrupulosa, a se passar por uma esposa arrasada, fazendo-a ver que ela ganharia muito dinheiro com a sua lanchonete quando as pessoas chegassem para ver o acontecido. Mais uma vez, Wilder nos apresenta uma personagem feminina muito marcante, muito forte, talhada na ganância, no cinismo, na falsidade e na frieza, bastante típico em seus filmes mais pessimistas. Assim como Lorraine (Jan Sterling), de A Montanha dos Sete Abutres, Phyllis Dietrickson (Barbara Stanwyck) de Pacto de Sangue (1944) e Norma Desmond (Gloria Swanson) de Crepúsculo dos Deuses (1950) também são verdadeiros monstros, vilões mortos por dentro, sem humanidade.

Ao se assistir ao filme, fica clara a pretensão de Wilder de chamar a atenção do público sobre o poder que a mídia tem de manipulá-lo. Tatum é desprezível por fazer com que Leo fique preso naquela montanha por mais dias que o necessário, mas é tratado como um herói que desbrava o interior da montanha para trazer mais notícias; o xerife local é um crápula, mas será reeleito porque é tratado como um grande homem que está empenhado no resgate de Leo. Impossível não se lembrar do caso Escola Base, uma escola particular de São Paulo, que os proprietários foram acusados de abusar sexualmente dos alunos. A escola teve que ser fechada, sofreu depredação pela população, os donos foram ameaçados de morte e acabaram presos. A imprensa tratou tudo de forma bastante parcial e noticiava todos os dias novas denúncias, que mesmo sem provas, ganhavam muito espaço na mídia. Descobriu-se depois que fora um erro, todos foram inocentados e o delegado responsável pelo caso se defendeu dizendo que cometeu muitas atitudes precipitadas pressionado pela mídia televisiva e pelas manchetes dos jornais. E os donos da escola, mesmo absolvidos, tiveram muitas dificuldades em continuar a vida. Estavam falidos e eram ameaçados constantemente de morte nas ruas e em telefonemas anônimos. A Folha de São Paulo foi a única a se retratar oficialmente pelos erros cometidos.

Além de levantar a questão sobre o poder de manipulação da mídia, que explora a população, Wilder vai um pouco mais além e mostra que Tatum, Datena e Escola Base só existem porque nós permitimos que eles existam. Nós consumimos o que é veiculado nos jornais, sem pensar. Simplesmente engolimos e assim os alimentamos. Além disso, Wilder questiona os limites da curiosidade humana. Por que precisamos saber todos os detalhes da vida dos envolvidos? Por que nós apreciamos a espetacularização das tragédias?  Por que nos deixamos envolver pela carga emotiva e apelativa da notícia? E isso acontece em uma escala global, vide a audiência do resgate dos mineiros no Chile em outubro de 2010, onde os jornalistas montaram um circo semelhante ao de Tatum, que chegou a um bilhão de pessoas em 28 países. Para levantar esses questionamentos, Wilder trata o público de maneira estereotipada e idiotizada, personificando-o no primeiro casal que chega às ruínas indígenas, que são os primeiros a fixar seu trailer ali, cujos filhos estão sempre vestidos com os souvenires do local e que dão entrevista à rádio dizendo com orgulho que foram os primeiros a chegar. Como macacos de auditório da vida real. Daí o fracasso de crítica e bilheteria à época. Ninguém quer se ver como o vilão no cinema, como o próprio Wilder reconhece: “Disseram que o filme foi um fracasso, porque a esposa se revela como um monstro frio – nenhuma mulher convidaria o marido para ver esse filme. Acredito mais numa outra razão para o fracasso, a de que o verdadeiro canalha não seja nem Kirk Douglas no papel do repórter, nem Jan Sterling no papel da esposa, mas o público. O jornalista é aquele que dá comida à fera, mas não é ele mesmo a fera. É está a causa do fracasso: ninguém quer ver a si mesmo no papel de canalha. Como é que se pode despertar a curiosidade das pessoas para ver o filme, se o que se mostra a elas é a que bestiais consequências a curiosidade leva?”.

Provavelmente, o filme também seria um fracasso nos dias de hoje. A Montanha dos Sete Abutres é uma poderosa fábula sobre o sensacionalismo jornalístico que sacia a nossa sádica fome de curiosidade.

Assista ao trailer de A Montanha dos Sete Abutres

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