Jogos do Poder, último lançamento de Mike Nichols, é um drama político que se passa na década de 80, retratando a participação dos Estados Unidos na luta afegã contra a ocupação soviética em seu país. Nichols, diretor de clássicos como Quem Tem Medo de Virginia Woolf e A Primeira Noite de Um Homem, sustenta sua obra em diálogos poderosos, contando com um time afiado de atores para dar vida à história de Charles Wilson (Tom Hanks), congressista americano que conseguiu financiamento para o fornecimento de armas e treinamento aos mujahedins (guerreiros afegãos).

O Afeganistão, embora não possua recursos naturais, tem uma localização estratégica importante, bem no meio da Ásia. Isso fez com que o país, por diversas vezes, fosse alvo de invasões estrangeiras. Em 1978, a facção Khalq do Partido Democrático Comunista Afegão (PDPA), de tendências comunistas soviéticas, dá um golpe de Estado, assumindo o poder e promovendo reformas marxistas-leninistas. Estas acabam gerando insatisfação na população profundamente islâmica, e uma guerra civil se instaura no país. Temendo perder o controle, ou que uma revolução islâmica se desse no país, à semelhança da que ocorria na mesma época no Irã*, a União Soviética decide invadir o Afeganistão com uma força de mais de cem mil soldados, e colocando Barbrak Karmal, líder de outra facção do PDPA chamada Parcham, no poder. Com um governo fraco, mantido pela força, surgem movimentos de resistência local, com apelos a jihad (guerra santa) contra os invasores soviéticos.

E é neste momento que começa a história de Charles Wilson. Bon vivant, mulherengo, bom de lábia, o congressista texano se interessa pela situação e é arrastado para ela através de Joanna Herring (Julia Roberts), uma socialite que arma um encontro entre ele e o General Zia (Om Puri), ditador paquistanês, com interesse que a resistência islâmica afegã recebesse maior financiamento. Une-se com o chefe da CIA Gust Avrakotos (Philip Seymour Hoffman), para aumentar o orçamento destinado aos mujahedins e treiná-los, sempre de maneira encoberta, comprando armas vindas de Israel e Egito, com somas espelhadas da Arábia Saudita e tendo os paquistaneses como intermediadores de armas, no que ficou conhecido como Operação Ciclone, que é um sucesso e cujos desdobramentos ajudam na queda da URSS.

O filme retrata elegantemente e com humor sutil um período extremamente controverso da história americana, pelos seus significados à sua época e nos dias atuais. O brilho certamente está no roteiro, adaptado do livro “Charlie Wilson’s War: The Extraordinary Story of the Largest Covert Operation in History”, de George Crile. Tudo é perfeitamente amarrado, num ritmo ágil que dá leveza ao filme. Tom Hanks está bem na pele do congressista meio canastrão, e Phillip Seymour Hoffman está excelente como Avrakotos; o destaque negativo do elenco fica para Julia Roberts, que parece forçada no papel de socialite texana.

Porém, o que pode distanciar o espectador é justamente a temática do filme. Thrillers políticos podem ser deveras interessantes, mas aqui Nichols falha em criar empatia do telespectador com a causa afegã, assim como perde a oportunidade de inserir o acontecimento em um contexto mais amplo, em que o Afeganistão não é “só” o Afeganistão, e sim mais uma disputa entre duas superpotências, disfarçada com boas intenções (ou não). Mas, ao menos, consegue mostrar claramente que tudo o que ocorre no Afeganistão atualmente é produto direto da intervenção americana no conflito e do subsequente abandono dos afegãos à sua própria sorte. Termos técnicos, especialmente sobre armas, podem passar batidos a uma parcela do público, o que também pode contribuir para perda de interesses.

Após a saída das tropas soviéticas, houve outra guerra civil no Afeganistão, que só foi resolvido quando o Talibã assumiu o poder e impôs seu regime bárbaro, conhecido pelas atrocidades e violações maciças dos direitos humanos. O erro da União Soviética e dos próprios americanos foi pensar que estavam lidando com um grupo unitário, quando o Afeganistão é composto majoritariamente por tribos, e sua organização obedece a essa ordem. Achar que porque certo número de pessoas vive dentro de certas fronteiras, e que isso já é suficiente para que elas se sintam pertencentes a uma mesma nacionalidade é desconhecer profundamente com quem se lida, e ainda mais quando se arma essas populações e depois as abandona à deriva.  E o erro desse filme foi fazer uma história potencialmente excepcional e esclarecedora “apenas” um filme bom e correto, que não fica à altura de seu elenco e de seu realizador.

Assista ao trailer do Filme Jogos do Poder

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