“Alá não criou o homem para que ele pudesse se divertir. O objetivo da criação é pôr à prova a humanidade por meio de dureza e oração. Um regime islâmico deve ser sério em todos os aspectos. Não há piadas no islã. Não há humor no islã. Não há diversão no islã. Não pode haver diversão e alegria naquilo que é sério.”

O autor desta frase é o Aiatolá Khomeini, o líder religioso que comandou a Revolução Islâmica de 1979 no Irã que foi tão bem retratada neste Persépolis (2007), filme de Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi, baseado na graphic novel autobiográfica da última. Satrapi captura sob um viés bastante pessoal aquele que é considerado por muitos como um dos eventos mais importantes da segunda metade do século XX, transformando o filme em um testemunho vivo das mudanças de seu país e da influência que estes eventos tiveram em sua própria trajetória. Com belos traços arredondados e uma paleta em tons de preto e branco, encontra a maneira ideal de balancear a tristeza inerente à história com a sua atitude e personalidade vibrantes, dando leveza ao filme e suavemente criando laços de empatia com o espectador.

Contextualizar uma história dessas é importante, e tudo começa em 1941, quando Xá Reza Pahlevi sucede ao seu pai no trono do Irã, com apoio do Ocidente. É forçado a abdicar em 1954, quando o governo democraticamente eleito do primeiro ministro Mohammad Mussadeq surge com força e dá um golpe de Estado, defendendo uma agenda nacionalista que gera fúria nos EUA e Inglaterra. Estes países então orquestram a Operação Ajax, que derruba Mussadeq e recoloca o Xá Reza Pahlevi no poder, desta vez de uma maneira ditatorial. Com a Revolução Branca de 1963, começa a modernizar o Irã através de reformas civis e militares, tentando implementar uma sociedade aos moldes ocidentais. Estas reformas geram grande descontentamento, por serem malsucedidas e afrontarem os valores de camadas mais religiosas da população, além da repressão sanguinária do Xá contra seus opositores e a corrupção de seu governo gerarem repúdio. Movimentos de contestação surgem, e diversos grupos se unem pela derrubada do Xá, sendo fortemente reprimidos pelo governo.

E é aí que se inicia a história da pequena Marji, menina curiosa, inteligente e viva, filha de pais esquerdistas e ansiosa em entender o que ocorre à sua volta. A Revolução é orquestrada do exterior pelo líder religioso xiita Aiatolá Khomeini, que prega uma sociedade islâmica alternativa aos projetos capitalista e socialista, utilizando de folhetos e mensagens gravadas para propagar seus ideais, e que consolida a queda do regime do Xá Pahlevi quando retorna do exílio em Paris . A formação de uma República Islâmica é massivamente apoiada através de votação. Em um mundo dividido pela Guerra Fria, o Irã se firma como movimento autônomo, porém essa nova sociedade que emerge não é tão ensolarada e positiva como se sonhava.

Aiatolá Khomeini, como se pode perceber na citação inicial, era um homem conservador, e as regras se enrijeceram. O Ocidente foi demonizado, a Sharia (lei islâmica) foi adotada, e os outros revolucionários não islâmicos, como os comunistas que pensaram que ali encontrariam espaço para propagar sua ideologia, foram considerados inimigos. Logo depois, o Iraque ataca o Irã, aproveitando-se da sua vulnerabilidade e buscando terra e petróleo, contando com o apoio do Ocidente no fornecimento de armas, numa violenta guerra que durou dez anos e não teve vencedor definido, somente destruição e perdas humanas imensuráveis.

Com uma personalidade naturalmente contestadora, e vivenciando todos esses horrores, Marji acaba sendo enviada à Áustria, onde descobre um novo mundo cujas liberdades civis andam no mesmo compasso da falta de empatia e de compreensão que encontra ali, além de ter que lidar com questões próprias da sua idade, como a descoberta da sexualidade, a puberdade e a busca pela própria identidade. Se o seu país natal parece bárbaro por não suportar aquilo que lhe é diferente, a sua estadia na Áustria também lhe mostra a crueldade passiva do Ocidente, que “deixa morrer” aqueles que não são do interesse da sociedade, como ela. A sua condição de imigrante é naturalmente ambígua, pois ao mesmo tempo em que espera construir uma vida melhor em um novo lugar, ainda que incompreensível aos seus olhos, Marji se apega à esperança de voltar à sua terra, pois tais laços são inquebrantáveis; porém, ao efetivamente retornar, encontra um Irã que não mais reconhece como seu. Como revela ao seu psiquiatra: ”eu era uma estrangeira na Áustria, e agora sou estrangeira no meu país”.

Marji estuda, se casa, se divorcia, se rebela com suas liberdades censuradas. Não há mais espaço para ela nessa atual sociedade iraniana, e ela intuitivamente sabe que é hora de partir. E o sentimento que o filme deixa é de uma esperança meio esmaecida, de um futuro que só é o melhor possível porque não há outra opção. Com uma protagonista forte, cercada por personagens tão marcantes quanto à avó e o tio Anouche, Marjane Satrapi conta lindamente sua história e a do seu país; sem deixar de exibir os horrores da guerra, permite o humor como via de escape ao espectador, e dá ao mundo uma visão tocante e sincera sobre o Irã que ama e conhece, longe das caricaturas xenófobas ocidentais.

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