Existem filmes que encantam pela sinopse, outros pela equipe técnica e alguns pelo título. Tal sedução ocorre em Eu Receberia as Piores Noticias dos Seus Lindos Lábios, último filme do paulistano Beto Brant, baseado no romance do parceiro de longa data Marçal Aquino. Apesar da dificuldade em pedir o ingresso na bilheteria (o prolongamento do titulo vai contra os marketeiros mais otimistas), algo relacionado ao mesmo perdura na memória. Talvez seja a beleza melancólica de sua mensagem, resposta crua à uma paixão proibida.

Assim como a narrativa no qual é baseado, o filme tem uma estrutura não linear, começando pelo desembarque do fotógrafo Cauby (Gustavo Machado) na faixa amazônica, local inóspito e perdido em algum lugar do extenso continente nacional. Cauby, se relaciona com seu primeiro contato, um policial para quem presta serviço ao tirar fotos para o registro de alguns detentos da delegacia municipal. Não precisamos caminhar muito pelo ambiente para que Lavínia (Camila Pitanga) apareça tímida na porta da casa de Cauby. Ele a convida para entrar, sua câmera e o registro são atrativos mas ela recusa, inicialmente.

O relacionamento ganha um novo personagem, o pastor e marido de Lavínia (Zé Carlos Machado) é um dos elos do encontro entre todos. O trio amoroso encontra no passado de Lavinia muitas respostas para dúvidas do espectador. Quem, como, quando e por que? O passado é o maior pecado da personagem. De inicio não sabemos como eles se conhecem e porque coexistem no mesmo ambiente, entramos em uma história pela metade. Cauby é quem desperta a paixão de uma mulher que encobre um passado duro. O pastor é o salvador que mantêm a esposa em uma zona de conforto e segurança. Ao final são personagens inquietos que não conseguem o que desejam, derrotados por um destino cruel.

Inegável a qualidade técnica do roteiro assim como o desempenho exuberante de Camila Pitanga, a atriz consegue transitar muito bem entre as diversas fases de sua personagem. Lavínia é santa, prostituta e louca na boa direção de Beto Brant. A fotografia assume riscos, principalmente na transição entre as paletas de cores enquanto a trilha-sonora está entrelaçada com a imagem na função de pássaros que (en)cantam escondidos na floresta. Tecnicamente temos um bom filme, escondido em poucas salas do país pelo nosso ainda deficiente sistema de distribuição.

A parceria entre Brant e Marçal rende bons frutos ao nosso Cinema que pouco investe em narrativas distantes de contos novelescos. Marçal é um ótimo escritor de romances policiais (O Invasor, Cabeça a Prêmio, etc.) e encontra na união com Brant a possibilidade de propagar suas histórias em outro universo. A situação  parece engraçada quando ouvimos Marçal descrever um encontro seu com Brant e a já vontade do diretor nas suas histórias – ele (Brant) descreveu um conto meu  de uma forma totalmente diferente do que idealizei. Que seja! Eu filmaria as melhores histórias dos seus lindos livros.

Assista ao Trailer de Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios

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