“A prostituta só enlouquece excepcionalmente. A mulher honesta, sim, é que, devorada pelos próprios escrúpulos, está sempre no limite, na implacável fronteira.”

Nelson Rodrigues

Ah, a Tchecoslováquia e seus filmes maravilhosos. Se hoje lembramos da Tchecoslováquia (lembramos mesmo?) como apenas um país que pertencia ao bloco soviético e que se separou em República Tcheca e Eslováquia no início da década de 90, nos anos 60, era um país que passava por uma grande efervescência de ideias de reformismo e de democracia que inspirava outros países da Cortina de Ferro. O cinema tcheco refletia em suas telas essas ideias e no mesmo período, uma geração brilhante de cineastas conhecida como New Wave tcheca (Milos Forman, Ivan Passer, Jaroslav Papoušek, Jiří Menzel, Juraj Jakubisko, Vera Chytilová, entre outros), de maneira similar a nouvelle vague francesa, buscou uma nova identidade para o cinema de sua época, utilizando uma narrativa fragmentada, personagens marginalizados e um uso intenso de experimentalismos. Alguns, como Juraj Jakubisko, Vera Chytilová e, mais tardiamente, Jan Švankmajer, elevaram esses experimentalismos a incríveis e inéditos níveis de puro surrealismo e onirismo.

Vera Chytilová, em especial, foi a única mulher desse movimento e seu segunda longa metragem, Pequenas Margaridas (1966), assombraria o mundo com suas cenas extremamente coloridas de inspiração dadaísta, seus cortes rápidos e a completa ausência de uma história. O filme se centra em duas mulheres que passam o filme todo destruindo as convenções de nossa sociedade em surreais esquetes e que, por isso, inspiraria o movimento feminista que ressurgia nas décadas de 60 e 70. Ainda que Pequenas Margaridas (1966) seja sua obra mais famosa e cultuada, em seu filme seguinte, Fruto do Paraíso (1970), Vera caminha para o mais puro delírio onírico e embrutece a sua crítica aos formalismos da sociedade e suas idiossincrasias.

Os dez minutos iniciais é um dos experimentos surrealistas mais bonitos da história do cinema. Nesses minutos iniciais, vemos um homem e uma mulher, nus, caminhando e essas cenas são fusionadas a outras, muito coloridas, mostrando folhas, frutos, nos propiciando uma experiência arrebatadora de texturas e mistura de cores (como exemplo, a figura acima). Ao fundo, uma música que contribui para a formação de um clima onírico e trechos de canto gregoriano citando passagens da bíblia acerca da história de Adão e Eva. Ainda que Fruto do Paraíso (1970) tenha uma linha narrativa muito tênue (não que a gente precise se importar com ela em filmes surrealistas, é claro), ela mostra Eva, casada com Josef, em uma espécie de paraíso, que como logo se pode notar, é um lugar monótono e supérfluo, onde as únicas coisas que se tem a fazer é colher legumes e brincar de bola na areia. Eva começa a se interessar por Robert, um sujeito estranho que anda atrás de mulheres nuas, possui uma misteriosa pasta e carrega uma chave, que depois de ser encontrada por Eva, muda a sua vida. Através dessa chave, ela descobre que Robert é um assassino e deseja que ele se torne o seu próprio assassino.

Robert é a serpente que seduz Eva e a leva a comer o fruto proibido. E o fruto proibido é o amor. O desejo de morte de Eva é o desejo de ser expulsa daquele paraíso tedioso, raso, estagnado. Seu vestido e a rosa em seu cabelo, quando passam a ser vermelhos, simbolizam o bom pecado de Eva, que a faz esquecer as convenções, os formalismos, a hipocrisia. Eva oferece a rosa vermelha a seu marido Josef, mas ele a nega e renega Eva. Josef ainda não está pronto para essa nova sociedade, essa nova vida, de liberdade das amarras sociais. Logo em seguida, Eva oferece a rosa ao expectador, convidando-nos a embarcarmos juntos nessa jornada. Estaríamos prontos?

Assista ao trailer de Fruto do Paraíso

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