Impossível assistir um filme do austríaco Michael Haneke e sair impune da experiência. Haneke sempre vai nos deixar uma marca, uma cicatriz por ter assistindo um de seus filmes. Com o seu fascínio pelo mal que existe dentro de todos os seres humanos, ele disseca as nossas vísceras, incomodando a ponto de muitas vezes, nos impedir de assistir um mesmo filme seu pela segunda vez. Muitos desistem de Funny Games (1997), pela não-exibição da violência, o que torna as situações mais violentas ainda, fazendo com que as cenas deixem de ocorrer na tela, para ocorrer apenas em nossa imaginação. Outros, por A Professora de Piano (2001), seja pela cena dos cacos de vidro no bolso do casaco da melhor aluna de piano, seja pela cena de sexo no banheiro. Outros ainda, pela brutal cena de suicídio em Caché (2005). No que cabe a mim, jurei nunca mais assistir pela segunda vez O Sétimo Continente (1989) por conta da sua terceira parte. É um filme brilhante realmente, como grande parte da obra de Haneke, mas perturbador de maneira tal, que fiquei sem dormir à noite e quase não consegui trabalhar no dia seguinte, só tentando digerir o final desse filme.

Em sua última empreitada, A Fita Branca (2009), Michael Haneke nos faz mergulhar no cotidiano de um pequeno vilarejo alemão no início do século XX, com foco sobre a infância das crianças desse vilarejo. As crianças, que adultas décadas depois, apoiariam Adolph Hitler e a ascensão do regime nazista. Quem nos conta a história do filme é o professor de música local, cujas frases iniciais (“os acontecimentos que ocorrem nessa aldeia poderiam esclarecer acontecimentos que ocorreram neste país posteriormente”) deixa clara a intenção do filme: contar uma fábula sobre o nascimento do nazismo alemão. À primeira vista, a tese de Haneke é que a autoridade da sociedade patriarcal alemã (e seus infinitos abusos, amplamente mostrados ao longo do filme) teria gerado sentimentos de crueldade e desprezo entre essas crianças que anos depois apoiariam Hitler e seu regime.

O filme, graças a sua impecável força narrativa e sua esplendida fotografia em preto e branco (que close-ups magníficos), venceu a Palma de Ouro em Cannes em 2009, mas isso não foi suficiente para salvá-lo de severas críticas que disseram que o filme estava muito preso à analogia do nazismo e que seus argumentos sobre a origem do nazismo nesse filme não seria nada mais do que requentar as idéias do pensador alemão Theodor Adorno dos anos 50 e da idéia do anti-semitismo de base de Eric Hobsbawnm que teriam sido derrubadas por um dos principais historiadores do Holocausto, Raul Hilberg. Hilberg argumenta que os crimes do Holocausto era tratados de maneira industrial, como um negócio qualquer do Estado, frio e burocrático.

Entretanto, o filme de Haneke vai além, muito além. Utilizando o nazismo como um mero exemplo, como uma coisa que se repetiu e que ainda pode se repetir, Haneke nos mostra, com pequenas ações, a fórmula de criar uma sociedade doente: a repressão patriarcal, a austeridade religiosa, o machismo e a necessidade de manutenção das aparências quando se vive em sociedade.  Se em seus filmes anteriores, Haneke já mostrava o mal consolidado nas ações humanas, aqui, ele nos faz buscar a sua origem e crescimento dentro dos indivíduos. Michael Haneke, em entrevista, admite isso: Não ficaria feliz se esse filme fosse visto como um filme sobre um problema alemão, sobre o nazismo. Este é um exemplo, mas significa mais que isso. É um filme sobre as raízes do mal. É sobre um grupo de crianças, que são doutrinadas com alguns ideais e se tornam juízes dos outros – justamente daqueles que empurraram aquela ideologia goela abaixo deles. Se você constrói uma idéia de uma forma absoluta, ela vira uma ideologia.  Sempre há alguém em uma situação de grande aflição que vê a oportunidade, através da ideologia, para se vingar, se livrar do sofrimento e consertar a vida. Em nome de uma idéia bonita você pode virar um assassino.”

Ao assistir ao filme, todos perceberão que o muito do nosso mundo atual não é muito diferente daquela Alemanha, daquele vilarejo. Pode-se citar grandes exemplos, o fanatismo religioso islâmico, os fascismos de esquerda em Cuba e na Coréia do Norte, a opressão israelense sobre a Palestina. Mas, o que mais incomoda, e aí que entra a genialidade (e a aspereza) de Haneke, é que muitas daquelas maldades, estão em nossas ações, no nosso cotidiano. Muitas vezes a praticamos, como muitas vezes a recebemos e reagimos como aquelas crianças naquele vilarejo. Haneke mais uma vez, em mais um filme, nos diz que ela está dentro de nós. Neste aqui, ao contrário de seus filmes anteriores, Haneke ainda nos dá uma esperança: a maldade não está dentro de nós, ela nos é embutida, como mostrado na cena em que a criança mais jovem e que por isso ainda sofreu pouco tempo de abuso carinhosamente dá ao pai (o padre local, símbolo da austeridade) um novo passarinho, depois do seu anterior haver morrido.

Assista ao Trailer de A Fita Branca

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