Para quem não conhece ou sequer ouviu falar do Alto/Médio/Baixo Xingu, regiões que integram o parque de mesmo nome, a expressão parece um tanto relacionada ao teor alcóolico daquela cerveja escura distribuída pela Coca-Cola. Contudo, a produção de Cao Hamburger não apresenta nenhum sinal de embriaguez durante os 100 minutos de projeção. Xingu, filme produzido pela O2 filmes, é um projeto que tem por base o trabalho realizado pelos irmão Villas-Boas – Orlando, Claudio e Leonardo – sertanistas que durante o século passado lutaram pela preservação do espaço e da cultura indígena no Mato Grosso.

Acima de uma obra em homenagem ao trabalho desses irmãos, Xingu apresenta o difícil contato do branco com o indígena, marcado pelo interesse comercial e político, evidenciado na própria constituição do Parque Nacional do Xingu, moeda de troca para a construção de uma base militar na Serra do Cachimbo. O esforço da família Villas-Boas amenizou o avanço social e predatório por áreas antes exclusivas de povos indígenas, último resquício de gerações dizimadas pelos colonizadores europeus desde a época das grandes navegações. Se antes o português lutava pelo enriquecimento através de matéria-prima e bens minerais serão o governo brasileiro e os fazendeiros os principais vilões no filme.

Não há preocupação didática com a infância dos irmãos Villas Boas, conhecemo-os durante o alistamento para a expedição Roncador-Xingu e durante a cena surge a primeira dúvida – o que levou irmãos de boa situação financeira e social a largar tudo em São Paulo e se aventurar por uma região ainda desconhecida? O espirito aventuresco logo encontra a preocupação com a cultura e o espaço de outros homens de ideologias distintas. O primeiro contato ocorre através do escambo, prática comum no período da invasão colonial. O indígena e sua curiosidade ingênua encontram o branco e seu desejo pela conquista.

Orlando, Claudio e Leonardo possuem personalidades distintas e são bem representados no filme por Felipe Camargo, João Miguel e Caio Blat. A caracterização é perfeita, basta comparar as imagens de arquivo apresentadas no final do filme. Nenhum dos irmãos sobressai perante o outro, Orlando é a expressão da razão, mais velho e líder natural do grupo, Claudio é um intelectual retraído mas de opinião firme, enquanto Leonardo é o jovem explosivo da família. Juntos no inicio, ao final funcionam como células separadas. Orlando é o negociador enquanto Claudio expande o trabalho pelo Xingu.

O filme possui ótima fotografia (Adriano Goldman) e trilha-sonora (Beto Villares). A montagem é bem realizada apesar do filme apresentar uma certa barriga na parte final. Tecnicamente, Xingu apresenta o desenvolvimento do cinema nacional que ainda sofre com problemas de roteiro e, principalmente, áudio. Cao Hamburger consegue fazer um filme a altura da história dos irmãos Villas Boas. Não é uma obra de arte, mas vale ser lembrado pela vitória que representa – a do esforço e luta de três irmãos pela preservação do que chamamos de Xingu – mais importante do que qualquer cerveja de rótulo colonizador.

Assista ao trailer de Xingu

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