“Muita polêmica, muita confusão”
Valesca Popozuda

Aquela que é considerada a obra máxima de D. W. Griffith, “O Nascimento de Uma Nação” também gera assombro pelas inovações que trouxe para o cinema de sua época, e especialmente por toda polêmica que gerou por seu discurso abertamente racista. Interessante notar que o lançamento do filme se deu em 1915, ou seja, exatamente 50 anos depois do final da Guerra Civil Americana, onde duas regiões do país se enfrentaram para defender suas civilizações. O Norte e o Sul se contrapunham nos mais diversos planos: se o primeiro era essencialmente burguês, industrializado e liberal (para os padrões da época), o último era aristocrático, grandes plantações e regime escravocrata, se assemelhando muito ao Brasil colonial. A principal divergência entre as regiões certamente foi a escravidão, questão que dividia o país. O conflito se inicia em 1861 e só finda em 1865, deixando como rastros mais de um milhão de mortos e um Sul completamente arrasado.

Nesse contexto é que se dá a primeira metade do filme: um Sul idílico, ideal, harmônico em suas maneiras e gestos, contrastando com o Norte “avançado”, com sua política complacente com os negros. A obra retrata a história dos Stonemans, nortistas e abolicionistas, e dos Camerons, sulistas “à maneira antiga”. Suas trajetórias se cruzam por laços de amizade e amor, e também pela Guerra Civil, que coloca as famílias em lados opostos do conflito. A vitória nortista introduz questionamentos: afinal, o que fazer com os milhares de negros libertos? Como ficariam os sulistas, sua economia, suas instituições políticas, sua sociedade?

Lincoln tenta resolver essas questões, mas a sua morte, encenada no filme, desencadeia a chamada Reconstrução Radical, onde a ideia de conciliação é abandonada em prol de uma ocupação e reforma social, buscando modificar os hábitos da sociedade sulista. Os nortistas assumem o poder no Sul, e os negros ganham direitos civis e políticos, passando a adotar uma conduta corrupta e atrevida. Tal comportamento gera uma oposição branca, que aparece no filme como a organização Klu Klux Klan, idealizada pelo mocinho Ben Cameron. Se o poder estatal lhes era contrário ao impor uma ordem social que feria seus valores, os membros da KKK buscam restaurar a harmonia anterior à guerra, não hesitando em fazer justiça com as próprias mãos.

A eficácia de Griffith em contar e entrelaçar várias histórias e sua eficiência em conseguir isso com tão parcos recursos disponíveis à época demonstra o seu grande domínio da narrativa, já que consegue sustentar o ritmo durante as mais de três horas de filme. As cenas de batalha são primorosas e impressionantes até hoje, e momentos como a em que os filhos mais novos das duas famílias, alvejados durante um conflito, morrem abraçados, demonstra a capacidade do diretor em emocionar sem soar piegas, assim como os casais que se formam entre os filhos das duas famílias, perfeitamente inocentes. O cuidado com a caracterização dos personagens (é só observar a família sulista antes e depois do conflito, quando vai literalmente do “luxo ao lixo”) certamente torna a história muito mais crível, dando uma ideia relativamente acurada do efeito da guerra nas pessoas comuns.

Sobre o componente ideológico do filme, alguns pontos devem ser ressaltados. Primeiramente, os negros aparecem na obra como ignorantes, brutos e mal intencionados, fraudando eleições, agindo de forma devassa como políticos e perseguindo as oprimidas minorias brancas. Essa visão que permeia o filme se dá pela perspectiva histórica que reinou até 1930, onde o negro era visto como raça inferior, não merecedora ou pronta para a liberdade que a América tanto pregava, dirigida basicamente por “instintos” primitivos. Em segundo lugar, é interessante perceber que o vilão do filme não é um negro, e sim um mulato, o vice-governador Silas Lynch. Numa sociedade cujo racismo segue uma hierarquia clara, com o branco no topo da pirâmide e o amarelo e o negro abaixo, porém ainda donos de parcas qualidades, como nos explica o antropólogo Roberto Damatta, a miscigenação era verdadeira causa de horror, pois eliminaria essas características positivas de cada raça. E o que abre os olhos de Austin Stoneman, senador abolicionista, para os perigos de sua política é justamente a tentativa de Lynch em se casar com a mocinha Elsie, sua filha. Em último lugar, o lugar da Klu Klux Klan como “a organização que salvaria o sul da anarquia do domínio negro” e que uniria o país certamente romantiza um movimento que de fato foi extremamente violento, e que encontra suas raízes não só no estereotipo negro como raça inferior já citado, e também evoca as origens WASP (White, anglo-saxon, protestant) dos heróis, povo excepcional, escolhido aos próprios olhos para iluminar o mundo com sua moral e exemplo irrepreensível, gerando uma enorme exclusão social por causa disso. A manutenção do status quo é a principal causa, e o final feliz necessariamente se atrela a essa conquista.

A obra se torna duplamente interessante porque a sua visão do evento já se tornou datada em si mesma e, portanto, permite duas perspectivas: a visão da Guerra Civil à época das filmagens, e o próprio filme que advoga os preconceitos de seu tempo, exemplificado pelo uso de atores brancos pintados de negros em diversas cenas. Seus méritos como filme são inquestionáveis, e a arte cinematográfica certamente ganhou muito com as inovações propostas por Griffith. Talvez seja realmente possível dissociar a qualidade e beleza presentes na obra do seu conteúdo certamente questionável. Mas será possível ignorá-lo completamente em nome dos avanços? E mais: será possível fazer da obra objeto de afeto, quando a narrativa é movida por causas tão inaceitáveis para nossa geração? Dúvidas.

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