O grande trunfo da diretora Maïwenn Le Besco em “Políssia”, é o grau de verossimilhança que ela consegue nos fornecer. O tom quase documental, dado por uma câmera que invade o ambiente da Brigada de Proteção aos Menores de Paris, a quase ausência de trilha sonora, atuações naturalistas muito bem realizadas e o jogo entre cenas dos policiais ora em serviço ora em seus momentos de lazer e intimidade, colocam o espectador dentro do grupo sobre o qual a história é contada.

Esse estilo de filme mais “cru” já foi utilizado antes no também francês “Entre Os Muros da Escola”. A opção pela omissão da dramaticidade parece ter funcionado bem nos dois casos, ao menos para o júri de Cannes, que premiou ambos – “Entre os Muros…” com a Palma de Ouro em 2008 e “Políssia” com o Prêmio do Júri no festival do ano passado.

O tema “policial” é explorado de forma diferente pela diretora. Quase não há cenas de ação. Boa parte do filme se passa nos escritórios dos policiais, em interrogatórios ora com crianças vítimas de abusos ora com as pessoas que os cometeram, que muitas vezes são familiares da vítima. O filme não se prende a nenhum caso, e sim à brigada de policiais como um todo.

“Políssia” envolve o espectador assim como os depoimentos envolvem os policiais, uma mãe que masturba o filho de 5 anos todas as noites para ele dormir melhor, uma pré-adolescente que tem que fazer sexo oral em alguns garotos para eles devolverem o celular dela. Boa parte dos integrantes da brigada são pais de família, que a noite têm que voltar para suas casas, depois de ouvirem e lidarem com casos como estes o dia todo, e tentarem levar uma vida normal fora do serviço. Talvez seja justamente esse o tema central do filme, policiais, que são antes, seres humanos, e o peso de trabalhar diretamente com fatos emocionalmente fortes sem se abalar.

As cenas dos policiais fora de serviço também dão muita força ao filme. A comemoração de um caso resolvido em uma noitada junto aos companheiros de brigada, um novo romance entre companheiros de trabalho, os problemas com seus parceiros. Tudo muito bem construído, sem cair em pieguice. A diretora só nos mostra o suficiente para entrarmos na vida de cada um daqueles policiais e sentirmos um pouco do que eles passam tanto em serviço, quanto fora dele.

Assista ao trailer de Polissia

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