Não fora fácil mergulhar em A Invenção de Hugo Cabret, tarefa complicada pela expectativa provocada pela sombra do diretor Martin Scorsese. Na incursão pelo cinema infantil, Scorsa tenta aliar sua paixão pela história do cinema com as aventuras de um órfão  que reside em uma estação de trem parisiense. Para tal a literatura de Brian Selznick é perfeita, porém ao ser adaptada ao cinema seu produto é um filme insosso e desprovido de conflitos.

Hugo Cabret é um jovem que tem uma infância normal na companhia do pai (Jude Law), porém o momento é alterado por um evento trágico que faz com que nosso Oliver Twist fique sob a guarda do tio embriagado. O conto de fadas de Scorsa não tem bruxa má e seu mocinho de lânguidos olhos azuis tem pouco carisma para conquistar o espectador. Talvez o único personagem que mereça certa atenção seja o mago(ado) George Méliès (Ben Kingsley), aprisionado em uma loja de brinquedos na mesma estação de trem na qual Hugo reside.

Nas poucas vezes que olhamos para fora da estação percebemos quão bela e iluminada é nossa Paris artificial, a câmera percorre a estação lotada de passageiros refinados e alinhados, os franceses para os quais torcemos o nariz. O único que assume condição de vilão, o inspetor da estação, divide-se entre a paixão pela florista e a caça de jovens orfãos que brotam em sua ronda. Enquanto todos cumprem sua rotina, o maior objetivo de Hugo é a construção de um robô, herança e última lembrança do pai. Contudo é a origem da máquina que mudará o percurso do jovem.

O filme abusa da perfeição imagética constituindo-se quase como um sonho infantil. Tudo é bonito, limpo e novo. Não há como negar que Scorsese é um bom condutor mesmo que o filme não reúna os principais elementos de sua carreira. Longe de uma obra-prima, Hugo presta serviço ao Cinema por constituir-se enquanto homenagem ao gênio Georges Méliès, apresentando-o ao público infanto-juvenil, fascinado pelo vazio provocado por blockbusters com infindáveis efeitos especiais.

Méliès é considerado o pai dos efeitos, já que descobriu na ferramenta dos irmãos Lumiére um grande instrumento de ilusão. O cinema e sua condição onírica nasceram do esforço de Méliès, mago que adaptou histórias e contos infantis superiores a qualquer obra disneyzada. Permeado de clichês o insosso Hugo tem tudo para ser esquecido pelos fãs de Scorsese assim como Oliver Twist fora pelos entusiastas de Roman Polanski.

Não é fácil fazer filme com e para crianças, Martin Scorsese bebeu na fonte da juventude errada.

Assista ao trailer de A Invenção de Hugo Cabret

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