Torci o nariz para a primeira produção que assisti do diretor francês Michel Hazanavicius. OSS117, uma paródia com base em filmes de espionagem, me pareceu tolo ao explorar a já desgastada fórmula – espião galã salva mundo de russos e alemães. Ao mesmo tempo que detestara o filme percebi que Jean Dujardin roubava certas cenas com sua característica peculiar de atuação. Dujardin é um ator que sabe ser expressivo e caricato no bom sentido do termo. Seus trejeitos garantiam as risadas à maioria das situações peculiares da produção.

Em O Artista, Hazanavicious eleva o status de Dujardin (George Valentin) e explora o que o ator tem de melhor ao desenvolver boa parte da narrativa entre gestos e expressões. O filme é uma clara homenagem à História do Cinema, começando com o cinema mudo, a transição para o sonoro e por fim o desembarque no gênero musical. Nada mais justo que exista grande investimento na fotografia e trilha-sonora, condutores do passado holywoodiano. Ao longo dos noventa minutos é fácil lembrar de Cantando na Chuva pelo tema, Crepúsculos dos Deuses pela narrativa e Um Corpo que Cai pela trilha-sonora de Bernard Herrmann magistralmente utilizada por Hazanavicius.

O destino de George Valentin parece fadado ao fracasso com a transição para o cinema sonoro. Porém há um ponto a ser levantado, o fato de Valentin sequer tentar participar de tal transição revelaria um descuido do roteiro ou o orgulho do personagem? O apego de George Valentin ao cinema mudo faz com que ele rejeite o que o dono do estúdio chama de futuro. Em tal transição alguém precisa se dar bem e é Peppy Miller (Berenice Bejo), uma desconhecida que cai nos braços de Dujardin, a futura atriz do sistema de estrelato.

A homenagem de Hazanavicius encontra certas dificuldades na recriação da fotografia em preto e branco. O sistema que dá o tom ao preto e branco e a iluminação não são os mesmos do inicio do século passado assim como os profissionais envolvidos. Por vezes fica evidente, na fotografia, a tentativa frustrada de atingir o passado por vias modernas. A trilha-sonora é perfeita ao conduzir os passos e angústias de Valentin. A cena do pesadelo sonoro é um dos destaques do filme assim como a escolha de certas composições como o já citado titulo-principal de Um Corpo que Cai.

Porém talvez pouca coisa mereça mais destaque do que o cachorro que integra o filme. O mascote é um dos elementos de humor mais importantes para que o longa não fique tedioso. Poucos filmes utilizaram tão bem o melhor amigo do homem como personagem – carismático e divertido. Muitas das relações tendem a ser singelas como a de Valentin e o motorista ou mesmo com Peppy que atinge o auge justamente na decadência de Valentin.

Vale lembrar que O Artista é um filme sedutor por produzir certa nostalgia e por ter um roteiro bem articulado. Mas uma das reflexões mais interessantes está no futuro do já extinto dono de estúdio. Com o sucesso de O Artista, o futuro da alta tecnologia e do 3D foi momentaneamente derrotado pelo passado do cinema mudo. Não seria o futuro do cinema apenas um circulo vicioso? Talvez o artista Michel Hazanavicius e seu filme guardem a resposta.

 Assista ao trailer de O Artista

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