Quem acompanha o trabalho do diretor Terrence Malick não estranhará a estrutura narrativa de A Árvore da Vida, baseada nos conflitos de uma família cristã norte-americana. Conhecido pela forma poética em tratar suas histórias, Malick aparece como um sujeito reservado, que desenvolve um cinema calcado na beleza e no lirismo.  Em seu último filme, por vezes, a relação entre os personagens enfeita o primeiro plano, constituindo-se apenas como micro cosmo de um plano geral do qual todos fazemos parte. Perdida entre tantas citações, fadada à atritos, o grupo familiar retratado formará um pêndulo, dividido entre o amor materno e a rigidez paterna. No cerne da questão estarão os filhos, representantes de uma jornada ainda desconhecida.

Malick consegue encaixar belissímas tomadas para contar a saga da vida, percorrendo a infância de crianças que aos poucos testam diversos preceitos morais, bula de uma vida na qual os papéis parecem previamente definidos. Mesmo quando o close é o principal enquadramento, a natureza ao fundo sobra na fotografia. O verde será a principal cor enquanto o canto dos pássaros dividirá importância com as narrações em off. As tomadas em contra-plongée (de baixo para cima) parecem preocupadas com o horizonte enfatizando os passos dos personagens por um ambiente no qual é necessário olhar para todos os lados.

A natureza é o elemento decisivo no comportamento dos envolvidos. Força maior, ininteligível, cercada de dualismos, habitat hostil, facilmente destruído por um meteoro. Eis a extinção dos dinossauros, espécie capaz de gesto tenro ao não devorar o outro, fraco e indefeso. Se tal animal tem tamanha capacidade, por que não uma espécie avançada como a nossa? O pai predador não deixa que seu terreno seja contestado, domando os filhos e direcionando-os para o caminho desejado. Paralelamente o filme volta-se para a gênese e evolução do universo, cercado de poeira cósmica, do choque entre a lava vulcânica e as ondas oceânicas, mas sobretudo de incompreensão, refúgio perfeito para o crescimento da religião.

O cristianismo, segundo pilar do filme, é base para a história de fé do casal O´Brien e inspiração para a relação entre os filhos. As personalidades infantis podem ser associadas ao clássico confronto de Caim e Abel, cercado de ciúmes, onde Jack, o mais velho, parece prestes a trair a confiança do irmão mais novo. O temor está no futuro do jovem que, já adulto (Sean Penn), caminha perdido entre as lembranças do passado. Jack vivencia sua história como o Spider de David Cronenberg. Ao contrário do diretor canadense que volta ao passado, Malick visita o futuro corporativo, morto nos arranha-céus e seus escritórios. Será esse nosso Apocalipse? Por fim, bailamos em um encontro parecido com o encerramento do seriado Lost, local onde os personagens se encontram e confraternizam, não mais perdidos em suas existências.

Gostar ou não gostar não é a questão! Que a árvore de Malick gere bons frutos antes de seus galhos serem podados!

Assista ao trailer de A Árvore da Vida

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