Após a primeira projeção internacional, no último Festival de Cannes, Melancolia perdeu lugar à repercussão provocada pelas declarações de seu diretor. Eclipse indevido para um filme dirigido por Lars Von Trier, mesmo que tal obra seja cercada de estranhamento. Talvez por referir-se à um roteiro desenvolvido durante periodo depressivo do diretor e também por ser posterior ao polêmico Anticristo, ainda vivo na memória do espectador.

Outros elementos enaltecem o caráter único de Melancolia e o principal talvez seja o fato desse residir também na categoria Sci-Fi, campo que começa a ser bem explorado por Trier.

Prólogo

Repetindo a estrutura de Anticristo, o filme é dividido em capítulos, precedidos por um prólogo de dar inveja à qualquer video-artista. O fim será o principio nas catastróficas imagens em super slow motion. Aqui o importante é degustar um ambiente trágico, ainda desconhecido. A fotografia e a trilha-sonora dialogam com o belo, no estilo que o diretor parece adotar como nova assinatura.

Parte 1 – Justine ou Noiva em Fuga

A parte “social” do filme dará enfâse ao casamento de Michael (Alexander Skarsgård) e Justine (Kirsten Dunst), moça de sentimentos duvidosos. Na cena inicial a camera tremida (Dogma 95) persegue o casal dentro da limosine que custa a curvear o terreno limitado. Eis o primeiro sinal de um mau presságio que ronda toda a cerimônia, seja no atraso acentuado dos noivos ou nas declarações maldosas de pais e familiares. Como nos demais filmes, Trier explora a  degradação dos personagens e do ambiente. A festa das aparências está fadada ao fracasso e paulatinamente Justine demonstra seu estado depressivo. O sorriso amarelo é questionado pela irmã (Charlotte Gainsbourg) e demais convidados, definitivamente uma festa cara para um humor pobre. O interior da casa, ambiente privado, é cercado de atritos e conflitos enquanto o jardim exterior, aparentemente calmo, reserva um cruel destino – Melancolia, o planeta em rota de colisão com a Terra.

O roteiro faz com que nenhum personagem passe despercebido na festa, desde o organizador que se recusa a olhar para a noiva passando pelo chefe workaholic. Uma festa interminável e degradante onde cada ritual desata os laços anteriormente firmados por Michael e Justine.

Parte 2 – Claire ou 2012

Terminada a primeira parte eis que a depressão de Justine serve de plano de fundo para o temor de Claire – a catástrofe desmentida pela ciência,  representada por John (Kiefer Sutherland), que sequer resistirá às 24 horas. Claire tem medo de morrer enquanto John tem medo do medo da esposa, privando-a do acesso à qualquer informação que não sua razão. À mercê da situação está Justine consumida pela depressão, adormecida como a invisível translação dos planetas em rota de colisão. Enquanto Melancolia aparece como uma bela miragem, as irmãs cavalgam por um mundo em seus instantes finais. O instinto materno domina Claire que esquece o presente para lutar pelo futuro do filho. Não há o que fazer senão sentar e observar o fim.

Trier destrói um mundo de hipocrisias e soberba. A extinção sobre a qual nada podemos, inevitável como a tristeza pós-moderna de Justine ou a fuga de Claire. Tecnicamente vale ressaltar que o filme parece ter sido feito para sua trilha-sonora e não o contrário e que toda mise-en-scéne segue um ritmo muito bem conduzido por Trier que como poucos sabe desenvolver a atmosfera adequada ao que pretende. O ótimo elenco e sua condução fica evidente durante a festa, Trier é especialista em extrair boas atuações de suas atrizes, sempre premiadas pelos principais festivais, inclusive àquele que sem sucesso o expulsou. Pouco adiantou, lá vem Trier em rota de colisão com os dinossauros do cinema!

Assista ao Trailer de Melancolia

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