O futebol. Se o mito Pelé não tivesse existido? Se Edson Arantes do Nascimento fosse sapateiro, daqueles que costuram o couro das chuteiras alvinegras dos muleques da vila? “Se”, condição de dúvida e projeção de um passado inexistente, serve para pensarmos o quão importante é tal modalidade esportiva em nossa cultura. A mídia estufa o peito para comemorar mais uma bola na trave: “somos o país do futebol!”. Antes fosse apenas do Carnaval, preso as voluptuosas belezas do jardim do Eden, onde a maçã é exportada para alguém que possa saboriar sua acidez. Samba! Já fora o tempo no qual intervalos mensais dividiam campeonatos. Precisamos vender e a rodada de empates vencerá os anúncios de Henry Ford na banca de jornal. Futebol, trabalho, trabalho, futebol. Mesmo na época de Pelé o confronto de 11 contra 11 não ganhava tamanha projeção. 1 contra 100 valendo um milhão não tem um terço da audiência.

O futebol. Guerras políticas, ideológicas, sobretudo passionais. O amor ao lucro da imagem. Em um país aparentemente carente de idolos que seja escolhido o mais gordo. Não, o concurso não é para rei momo. Miss pelada! Que valha então a cintura de Gisele Bundchen! Que beleza! Haja coração! O futebol dela é americano! A rivalidade sempre existiu no futebol porém passou por profundas transformações. Os apelidos carinhosos contribuem para a descaracterização alheia seja no time dos efeminados ou dos fedorentos. Clube massificado, clube elitizado. Dualidade ou imbecilidade? Há quem não perceba o inerente perigo de alimentar o processo. Se o amor (in)condicional é transferido ao clube do coração seu antônimo espreita enquanto o administrador da empresa refestela-se nos lucros. Nem o juiz salva, uma mala de dinheiro para cada assoprada. Cartão vermelho!

A copa do mundo no Brasil é uma piada de gosto duvidoso. Onde será a abertura? Eu pago impostos e mereço que meu bairro tenha um estádio melhor que o seu! Gente diferenciada, vamos crescer ao redor do coliseu, arena na qual aplaudimos a barbárie. Queremos o desenvolvimento de nossa comunidade arquitetada pela grande empreiteira! Subam as paredes. Odeio Brecht! O Estado já era! Só tem ladrão, corrupto. Apague a luz o último politico que sair com o bolso vazio. Deixe apenas o dizimo sem esquecer de depositar na conta em Zurique enquanto permaneço inerte, frente a TV a dar risada dos velhos dribles de Pelé!

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