“Eu entendo Hitler, embora compreenda que fez coisas equivocadas. Só estou dizendo que entendo o homem, não é o que chamaríamos de um bom homem, mas simpatizo um pouco com ele”. Lars Von Trier (Cannes 2011)

Lars Von Trier, polêmico diretor dinamarquês, assistiu sua reputação ruir na emissão de uma única frase – “Eu entendo Hitler”. O pensamento condenável escapou aos ouvintes e nada tinha a ver com seu último filme Melancholia, talvez a produção menos comentada de sua cultuada carreira. A ousadia fez com que o pomposo Festival de Cannes declarasse o diretor como persona non grata. Cabe aqui questionar: o erro de Trier justifica a lei da mordaça sobre qualquer opinião que faça referência ao holocausto, mesmo que tal seja totalmente equivocada? Será que a declaração de Trier, mesmo após demonstração de arrependimento e pedido de desculpas, é o único mote para tal expulsão?

Não há como analisar a intenção de Trier, sequer julgá-lo, seu ato faz referência a um tema intocável. Evidente – o Holocausto/Segunda Guerra Mundial é a única ferida da história da humanidade ainda não cicatrizada. Talvez o atentado de 11 de setembro seja outra, mesmo não possuindo a dimensão da Grande Guerra. Trier diz ter entendido a única pessoa que ninguém tem o direito de entender – Adolf Hitler. Milhares de alemães o seguiram conhecendo ou não suas atrocidades, lutando por um ideal que imagino compreendiam e/ou compartilhavam. Diria que Ian Kershaw, biográfo do nazista, em algum momento deve tê-lo compreendido nas 1000 páginas de seu livro. Aqui compreender não significa compartilhar e/ou defender os mesmos ideais, mas sim julgar atitudes tendo por base algum conhecimento.

Como peixe Trier morreu pela boca ao “simpatizar” com algo abominável. Porém não seria mais lúcido discutir com o inculto diretor para que perceba quão cretinas foram suas palavras?  Qual o peso do holocausto para um dinamarquês? Muitos julgam que deveria ser equivalente à de um habitante de Israel, apesar dos distintos processos culturais e educacionais. Será que Trier aprendeu direitinho na escola que não se pode brincar com certos fatos? Kirsten Dunst parece que sim, por tal nunca saberemos se a bela ruiva nutre simpatia por algo tão nefasto. O policiamento sobre certos acontecimentos parece ter magnitude desproporcional. Milhares de tribos indígenas foram dizimadas durante a colonização portuguesa/espanhola da América Latina. Pobre índio, esquecido e sem direito a protesto. Óbvio, uma atrocidade não justifica a outra.

Trier pagou um preço pela própria ignorância. Pena que sem o espaço devido para a discussão da informação não ocorra a construção do conhecimento. O que Cannes fez foi simplório se comparado ao desafio de ouvir milhares de simpatizantes não só desse canalha nazista mas de diversos outros. Ao fim é mais fácil dizer a uma criança “Não!” do que explicar as consequências de determinados atos. Vai chorar Trier, fez bobagem e vai ficar de castigo, por tempo indeterminado!

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