Como não se encantar com as belezas naturais do Rio de Janeiro? A alcunha de cidade maravilhosa é justificada em Rio, nova animação do abrasileirado Carlos Saldanha. A homenagem do diretor à cidade natal aparece em suas entrevistas como um velho sonho de quem invadiu o hall dos principais realizadores do gênero.  Contudo um olhar mais atento e o castelo de areia desmorona apenas com as ondas de poluição da Lagoa da Tijuca. Quão importante é o desejo de um diretor perante o ávido interesse de um grande estúdio em lucrar com um produto exótico, importado de um curioso trópico, rico em beleza, aparentemente pobre em identidade. Rio é um folder colorido com imagens deslumbrantes para serem vistas de cima, da altitude dos passáros, mesmo que o principal personagem ainda seja deficiente nessa técnica.

Existem filmes que apresentam sua essência ideológica nas primeiras cenas. Rio começa com um amanhecer, o despertar das emplumadas aves ao som de uma canção insistentemente definida como samba, o que envergonharia até mesmo aqueles que jamais ouviram falar em Zé Keti. Na versão principal o samba envergonhado é entoado em inglês, como boa parte do filme, mesmo que o cenário seja ensolarado e propicio para o  carioquês, idioma que perdeu a importância desde que as frutas murcharam no chapéu de Carmem Miranda. Blu é o nome da principal ave, sequestrada e exportada por nós, porém salva por uma americana de bom coração. Linda é de Minessota mas estranhamente tem permissão do Ibama local para criar uma arara azul engaiolada,  aparentemente conformada ao observar a neve que cai sobre a floresta de concreto.

Linda é convidada para conhecer as belezas do Rio enquanto cede a ave para um bem maior, livrar a espécie da extinção já que o par feminino reside justamente na cidade maravilhosa. Blu é um legitimo pet e se assusta com a possibilidade de migrar à um país desconhecido, principalmente, exótico. Mas tudo, aparentemente, muda quando Blu conhece Jade, ave que estranhamente se incomoda com seu encarceramento. Poderia um pássaro tão bem cuidado preferir voar por céu tão perigoso como o do Rio de Janeiro? Se nossos vizinhos desenvolvidos estão preocupados com a Amazônia, o que dizer do lucrativo tráfico de animais silvestres? Para piorar enquanto todos batem o bumbo Blu e Jade são sequestrados por dois afrodescedentes e um nordestino, fato que preocupa o casal anglo-saxão formado por Linda e Tulio. As autoridades locais são de fato inexistentes, os carros de polícia não estão espalhados pelas vielas da cidade. Entre os malfeitores uma velha cracatoa e dezenas de macacos que divertem mas invisivelmente assaltam os pobres turistas.

Blu corre de um lado para o outro tentando livrar-se do samba que é um misto de maracatu. Mas que nada! No final a festa irrompe pelo sambodromo em um belo desfile onde a alegoria perde pontos, talvez porque a ordem “rebola” tenha sido entoada no já desconhecido português. Não poderia ter terminado melhor para Blu, Linda e Tulio enquanto aos bandidos resta comemorar a impunidade de descer de paraquedas em pleno corcovado. Bastaria seguir o conto do patinho feio para entender a construção de Blu, a pobreza em juntar diversos personagens que valem  alguns segundos de alegria, aliados a sensação de prazer em sobrevoar um cenário tão belo como o do Rio de Janeiro, perfeito aos olhos dos politicamente corretos. A limpeza do morro foi feita, o único garoto que pende ao crime no fundo tem bom coração. Que bom que ele é como nós, não precisa assaltar para pagar o caro ingresso da sessão 3D. Imagem distorcida!

Apesar da critica engana-se quem acha que assistir a tal filme seja perda de tempo, talvez sejam horas essenciais para atestar a construção de uma imagem que se propaga mundo afora. Venham nos conhecer! Ainda guardamos os mistérios do século XVI. Acordamos com samba no pé! Temos carnaval onde todos literalmente dançam. O filme parece escrito por alguém que olha um cartão-postal e escreve atrás uma mensagem genérica de carinho. Esperar tanto tempo tem lá suas vantagens, uma boa soma de dinheiro e a oportunidade de fazer o filme que todo gringo gostaria de ver. Brasil misterioso! Talvez seja o tempo de Saldanha perceber que mar calmo não faz marinheiro.

Assista ao trailer do filme Rio

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