A cena inicial de Além da Vida, último filme de Clint Eastwood, é uma aula para Michael Bay e seus seguidores – o efeito especial como suporte ao drama, não o contrário. O momento exato no qual  uma onda afeta a vida de milhares de presentes e também ausentes, estes últimos representados pelas outras duas histórias paralelas  da produção . O ápice do filme, caracterizado pelo tsunami, banha o espectador em um universo curioso e aparentemente distante das demais obras do velho Clint – o tema espiritual nunca ficou tão evidente, assim como algumas críticas religiosas. Longe de ser o melhor filme de Eastwood, Além da Vida é um filme comum (na filmografia do autor), facilmente associado à diretores que gostam de armar teias narrativas e explorar o cinema transnacional.

Explorando o  máximo do drama, porém sem ser piegas, Eastwood conduz a primeira história através do pós-morte de uma jornalista francesa, vítima de uma onda que mudará o eixo de sua vida. Antes estabilizada e famosa, a moça sente-se sensibilizada pelas imagens da linha tênue que separam a vida da morte. Marie Lelay (Cecile De France) perde-se na vida profissional e amorosa, sua única esperança é decifrar o significado dos poucos minutos em que esteve morta. Tarefa dificil para um tema dominado por concepções religiosas, Marie decide então abandonar o barco em curso e começar a redação de um livro sobre o tema, o que causa mal-estar na editora francesa – como vender um livro espiritual em uma nação tão acostumada às obras de senso político-crítico?

O segundo caso, talvez o mais interessante de toda a trama, envolve George Lonegan (Matt Damon), um médium que prefere esconder sua aptidão para ser “normal” como os demais que o cercam. Contundo a mediunidade de George parece não obedecer seu desejo, tornando-se um obstáculo em suas relações sociais. A começar pelo irmão do personagem que tenta convencê-lo a explorar financeiramente o que considera um dom, fato que carrega o filme de um lado ético interessante, já que posteriormente diversos charlatões serão apresentados. Com uma personalidade retraída, George parece fadado ao fracasso seja profissional ao ser demitido da fábrica em que trabalhava, seja amoroso por assustar uma traumatizada pretendente.

A terceira história envolve duas crianças e a mãe, dependente química, certamente é a relação mais triste aos olhos do espectador, sensibilizado com o acontecimento que envolve uma das crianças. Por serem gêmeos, a relação funciona quase como um espelho, tragicamente partido pelo destino. Interessante a maturidade das crianças frente a dificuldade de não contar com pai e mãe durante a infância. Ambos, inicialmente autônomos, conseguem momentaneamente driblar os assistentes sociais na luta para permanecer com a mãe biológica. Alguns signos religiosos revelam críticas de Eastwood, o primeiro está na escola multietnica do garoto quando a professora pede para que tire o boné e ao fundo percebemos uma garota muçulmana usando véu. O segundo na igreja quando uma cerimônia é rapidamente encerrada para que outro culto entre em seu lugar.

Eastwood já havia alfinetado a igreja com seu personagem ranzinza de GranTorino. Porém, se fosse o diretor da obra conduziria-a a um final mais triste. Eastwood preferiu amarrar tudo como de costume em obras do gênero. Tal me lembrou Kieslowski na Trilogia das Cores, quando perguntado remetia à necessidade de expor como somos próximos um do outro. Eastwood o fez de maneira compacta, no mesmo filme, com uma direção segura na qual não precisa fazer muitas firulas para contar boas histórias. Ao final a certeza de que o velho cowboy já pensa além do próprio passado frente as incertezas do final da vida.

Assista ao trailer de Além da Vida

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