Algumas semanas após o primeiro contato com Cisne Negro, última produção de Darren Aronofsky, eis que decido refletir sobre as opiniões com as quais me deparei nos últimos dias. Não sou radical sequer extremista, pelo contrário, fico contente ao ler algo que discorde de opiniões frequentes e largamente difundidas mesmo que tais não corroborem com as minhas. Contudo é necessário um pouco de inteligência para compartilhar uma análise na qual vigorem outros fatores além do gosto pessoal. Inicio justamente pelo mal fadado gosto ao afirmar que o cinema de Aronofsky me seduz, não por ser autoral como alguns pregam, já que não o considero de tal forma. A sedução fica por conta do caminho que como diretor e roteirista ele desenvolve junto com seus personagens.

Em Réquiem para um Sonho era constante o choque entre duas gerações absorvidas pela brutalidade do “sistema”. O vicio estava presente na figura da mãe, hipnotizada pela TV e, seu filho e namorada dependentes químicos, interessante como tal caminho evidencia a fraqueza  e alienação do sujeito. Em O Lutador era a vez da degradação humana, a queda do herói carismático com o qual o espectador se envolve a ponto de querer carrega-lo. Cisne Negro volta seu foco para uma bailarina que disputa ferrenhamente um papel na popular peça de Tchaikovsky. Para aqueles que tentaram ridicularizar a atuação de Natalie Portman (Nina) diria que tal fato só demonstra sua excelência, sua personagem é algumas vezes irritante, tal como tantas outras que se consagraram no cinema. A composição psicológica da mesma pode ser analisada também pelo péssimo relacionamento com a mãe que prefere mantê-la presa em uma bolha.

A ingenuidade é um comportamento irritante no cinema, já que é inevitável a associação da mesma com a burrice/ignorância como em um filme de terror no qual sabemos a posição do assassino enquanto a vítima segue tolamente ao seu encontro. Todos no filme são mais espertos que Nina, porém nenhum possui a vontade necessária para alcançar um objetivo como a frágil personagem. A antítese entre o cisne branco e o negro é uma boa metáfora para as mascaras que nós mesmos utilizamos, já que não há quem seja de todo bom ou mau perante o outro. Tecnicamente o filme utiliza diversos recursos para que o espectador acompanhe a degradação da personagem pelo “submundo” do balé, os principais são fotográficos como os ângulos que acompanham a personagem em terceira pessoa e a câmera na mão que faz do espectador um participante do filme. Há também a boa exploração da trilha-sonora, adaptação de Clint Mansell para a obra do genial Tchaikovsky.

Nina sacrifica o corpo por si e pelo outro (a imagem do balé é diferente ao espectador e à quem dança. Aronofsky tenta captar isso logo no inicio do filme quando acompanhamos os passos no palco junto da personagem) ao treinar para atingir seu objetivo, a mesma encontra alguns desafios pelo caminho entre os quais a oposição feminina da rival Lily (Mila Kunis) e masculina do diretor Thomas (Vincent Cassel). Ao final é nítido que sua ingenuidade não escapa da influência de quem a cerca. Nina, uma boneca de porcelana, descobre paulatinamente a própria sexualidade sendo ao mesmo tempo seduzida pela rival e pelo diretor. Não há como não lembrar de A Professora de Piano, obra-prima de Michael Haneke. Contudo enquanto Haneke aprofunda-se na questão sexual dando densidade a personagem da perfeita Isabelle Huppert, Aronofsky prefere  a história de uma mulher desvirginada a cada avanço em um processo que acompanha a perda da sanidade mental.

Perceber que entre tantos amigos existem os que odiaram a obra classificando-a como vazia perante o significado da dança clássica àqueles que não gostaram do final pela saída aparentemente ridícula para o encerramento de uma trama nada complexa. Dos que gostaram ouvi bons comentários técnicos frente a uma cegueira parcial que ocorre quando o filme é classificado pelo seu autor. Quanto a mim prefiro ler a análise ou opinião alheia. Passado a empolgação inicial diria que é um filme bem feito, mas mal concebido. Falta algo que não está no começo, no meio ou no fim, mas em sua espinha dorsal. Algo que não sei explicar e que deve estar associado aquele que tanto tento fugir – o já citado gosto pessoal. A recente filmografia de Aronofsky não é grandiosa mas cada filme parece ter uma pequena marca d’água, o registro de um diretor ainda em cima do muro ,mas que por enquanto tende mais para o lado que os cinéfilos tanto procuram, o do sempre sedutor cinema de autor.

Assista ao trailer de Cisne Negro

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