Ayrton Senna da Silva. Considerado este mês pela revista ESPN como o maior esportista brasileiro de todos os tempos. Pelé não estava na lista, dizem que o rei do futebol é Hors Concours. Mesmo sabendo da importância do futebol para a cultura nacional e a projeção internacional de Pelé, acredito que a publicação tenha acertado e tal fato é evidente após assistir Senna: Beyound the Speed of Sound, documentário do inglês Asif Kapadia. A produção narra a transformação do homem em mito, desde sua origem no kart até o último suspiro daquele que não pode ganhar outra alcunha senão a de herói. Foi assim que o povo brasileiro o elevou desde suas vitórias, a principal no GP do Brasil onde ganhou a corrida com problemas no câmbio nas voltas finais. A história de Senna é a de um homem da classe alta que teve todas as oportunidades amplificadas por um talento incomum. Sua análise não pode ser destituída temporalmente, talvez Senna tenha sido a única imagem de esperança de um tempo obscuro, cercado por miséria, desconfiança e corrupção.

Senna é um documentário que provoca soluços, aflições, lágrimas. A trilha-sonora de Antonio Pinto colabora para o envolvimento emotivo além da história de quem conhece o maior campeão da Formula 1 e de seu principal rival Alain Prost. Prost é o vilão do documentário ao lado do então presidente da FIA, Jean-Marie Balestre, protetor do desleal piloto francês que jogou Senna para fora da pista em 1989 e provou do próprio veneno no ano seguinte. Ao bem da verdade ambos eram pilotos fantásticos, humanos, sujeitos a acertos e erros como qualquer outro da categoria. A competência e determinação de Senna fizeram com que rivalizasse com Prost em um tempo onde a política no esporte era tão forte quanto na atualidade. A principal diferença é que talvez Ron Dennis não tivesse peito para organizar o jogo de equipe que privilegiasse um dos pilotos. Inimaginável que Senna deixasse Prost passar ou vice-versa sem dificultar a manobra ao máximo. Tal disputa elevou a Formula 1 como a principal categoria do automobilismo mundial com altos niveis de audiência.

A escolha do diretor ao mostrar as principais temporadas de Senna através do mito, sua vida particular, preocupação com seu país só engrandecem a imagem do piloto. Lembro-me que mesmo aqueles que não gostavam de corridas acompanhavam-nas aos domingos, confiantes nos minutos de alegria provocados por uma vitória de Ayrton. Isso fica evidente em um dos depoimentos ao final do filme após a morte de Senna, -“não temos nada, perdemos nossa única alegria de Domingo”. A relação de Senna com as mulheres é simplificada, sua família aparece em diversos momentos na narração em off de sua trajetoria. Reginaldo Leme, principal comentarista da categoria no Brasil participa assim como pilotos, dirigentes e o médico Sid Watkins que revela a proposta feita a Ayrton no GP de Imola – “vamos parar, nos aposentamos e vamos pescar”. A resposta de Senna não só marcaria seu futuro mas o de toda a categoria. Em Imola o desfecho da história de Senna e do documentário.

Imola, 1994. O roteiro parece ter sido desenvolvido por Alfred Hitchcock, tamanha a apreensão do público que sabe o final do filme mas sofre durante seu desenvolvimento. Senna deixa a McLaren transferindo-se para a Williams confiante que a estrutura do carro o beneficiaria pelo uso do controle de tração e outros aditivos. Contudo a FIA proibe todos os aperfeiçoamentos do carro deixando-o instável. Era evidente a falta de segurança dos carros em Imola, o primeiro acidente ocorre com o novato Rubens Barrichelo, preocupado Senna o visita na área de enfermagem. O segundo acidente é trágico, Roland Ratzenberger falece após batida extremamente forte, a imagem de seu corpo no meio da pista é situação hipotetica para o atual nível de segurança da Formula 1. O acompanhamento das últimas horas de Ayrton Senna é indescritível assim como a cena sufocante da última volta onboard no carro do piloto. Os segundos parecem minutos, horas, dias, meses, anos como se toda a trajetória de Senna passasse pelas suas últimas curvas.

Ayrton Senna da Silva não é só um exemplo de esportista mas também de cidadão. Seus grandes gestos de força acompanhados pelo manto nacional aparecem em pequenos momentos grandiosos. Senna fazia questão de dizer que era brasileiro, de ajudar o próximo, sair abraçado ao povo. Professor Sid Watkins fala de seu caráter e humildade como únicos em um meio imerso em vaidade. Senna guiou carros impilotáveis para o atual padrão da Formula 1. Nunca houve um idolo no esporte como Ayrton Senna, não há quem não se emocione com sua força e dedicação. Questionado sobre qual seu maior adversário, uma nova lição. Presumimos que a resposta será Alain Prost mas Senna lembra do ínicio da carreira no Kart, quando correu contra um outro piloto muito mais experiente, com o qual aprendeu muito. Ayrton demonstra o quão a formação básica é importante, talvez esse o motivo de investir em programas sociais para crianças carentes. O instituto que leva seu nome tem importante papel nesse sentido.

A carreira de Senna parece ter sido feita para o cinema como uma tragédia de Shakespeare. O documentário é simples com suas melhores cenas e uma montagem de um diretor que parece ter se apaixonado por um personagem que conhecia pouco. A morte de Senna reformulou os padrões de segurança da Formula 1, Sid Watkins foi nomeado para dirigir um grupo de pesquisa na área. O Brasil parou e chorou a morte de sua principal alegria aos domingos. O momento foi histórico muitos se lembram onde estavam ou o que faziam no momento do acidente. Como todos chorei e olhei para o poster que guardava sempre dobrado, tinha 10 anos e perdia meu grande idolo. Meu poster continua dobrado e guardado, sempre tive medo de colocá-lo na parede e desgastá-lo com o tempo. Hoje percebi que a história de Senna permanecerá independente da memória coletiva, como um rio de águas limpidas que corta o coração do Brasil.

Assista ao trailer do documentário Senna

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