Ainda me lembro do curso sobre história do cinema ministrado por Luis Carlos Pavan e Careimi Ludwig Assmann. Na última aula uma viagem pelo cinema japonês que tanto admiram e uma informação que desconhecia – a região da Liberdade já abrigou quatro cinemas onde eram exibidos o melhor da produção nipônica. O que ocorreu com esses locais? Talvez tenham passado pelo mesmo processo dos demais cinemas da região central de São Paulo, paulatinamente mortos pela má administração e sobretudo pelo crescimento de outras redes, localizadas em espaços aparentemente seguros – os Shopping Centers. O que encontro quando percorro as ruas da Liberdade é a venda de filmes piratas, não só japoneses como coreanos e chineses. O cinema do velho oriente sempre foi uma lacuna na minha cinefilia ao ponto de já conhecer Kurosawa mas demorar a encontrar Ozu e Mizoguchi.

Sabendo da violência empregada decidi assistir o novo filme de Takeshi Kitano, diretor e ator de O Ultraje. A sala estava repleta de jovens com traços orientais, o que me causou felicidade, recordando a história dos cinemas da Liberdade. Mas logo tal sentimento se transformaria em espanto, não que seja uma pessoa conservadora (pelo contrário), mas as gargalhadas durante as cenas violentas me espantaram. Sentado logo a frente de um casal de namorados me incomodei com as risadas que a moça compartilhava quando os personagens trocavam sopapos, tiros e decepavam partes do corpo próprias e alheias. Não só ela como um senhor ao meu lado também se alegrava com o ultraje de Kitano ao retratar as relações de poder imersas em diversas famílias da Yakuza. Essa relação sádica com o filme me impressionou, mesmo percebendo que haviam traços do gênero comédia presentes.

Além de beber no cinema B norte-americano, Quentin Tarantino, Robert Rodriguez, entre outros, possuem um pé no cinema oriental, no cinema de capa e espada, lutas de samurais, traços também nítidos no filme de Kitano. O diretor não inova no gênero, mas amarra bem as relações corruptíveis entre as famílias, a polícia e a Yakuza. Todos fazem parte de um esquema onde o mais difícil é sobreviver a ganância alheia, o objetivo é o lucro e o poder, valendo qualquer atitude para atingi-lo mesmo que o respeito, uma instituição forte nas tradicionais famílias orientais esteja em jogo. Os diaáogos são divertidos pela entonação de voz própria do idioma japonês e pelos velhos estereótipos da sabedoria do mais velho contra a tolice dos jovens.

O Japão não é mais terra de samurais, mesmo que o cinema ainda revire esse passado. Mesmo a Yakuza aparece decadente no filme de Kitano, presidida por um sujeito de comportamento tradicional e autoritário. O velho hábito de cortar o dedo precisa valer a pena, propiciando retorno quase imediato. Dinheiro, poder e mulheres são os beneficios da carteira assinada pela Yakuza, instituição que não enfrenta forte oposição da polícia durante o filme, seus problemas são internos. O filme de Kitano, feito para entreter parece ter encontrado um público além de seu objetivo. Talvez sejam da geração Jogos Mortais, onde a violência desnuda não causa mais terror, em seu lugar um sentimento novo, satisfação em observar algo presente no telejornais mas longe da realidade. Ou será que as pessoas que sobrevivem nas áreas mais violentas do mundo gargalham a cada morte computada?

Assista ao trailer de Outrage

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