Apichatpong Weerasethakul. Já fizera esforço para decorar o nome de poloneses, russos, japoneses, gregos mas meu conhecimento sequer batera a porta do então desconhecido cinema tailandês. Na sociedade da informação encontramos alguns desconhecidos pelo caminho ao tempo  que reverenciamos os já consagrados. Se o Festival de Cannes não premiasse Tio Boonmee que pode recordar suas vidas passadas tardaria a conhecer Weerasethakul, suas imagens poéticas e a tranquilidade terapêutica que cerca seu filme. Alheio a velocidade do cinema e da informação descrita, Weerasenthakul realiza uma cinema aparentemente simples utilizando cortes secos e uma montagem que por vezes confunde o espectador por sair de uma história e migrar para outra que aparentemente não tem relação com a primeira.

Mas o simples logo se revela surpreendedor, não pela manutenção do mistério imediato, aquele que cerca as criaturas que visitam Tio Boonmee mas a razão de tal reunião. Os fantasmas de Weerasenthakul são de carne e osso, sentam-se a mesa e compartilham as angústias com Tio Boonmee, debilitado pelo problema no rim mas que não se assusta com a presença da falecida ex-esposa e do filho, criatura chamada de macaco fantasma. A criatura nos captura pelos olhos vermelhos imersos num vulto negro, desafiando qualquer entendimento, fazem parte de um universo fantástico desconhecido, talvez presente na cultura tailandesa, a qual Weerasenthakul parece basear seu filme. O macaco fantasma é daquelas criaturas que aparecem pouco no cinema, aquelas que não violentam a inteligência do espectador pela aparência exorbitante mas conteúdo pífio.

Todos se reunem para um suspiro final, percorrendo a fazenda de Tio Boonmee, lugar pacato onde os insetos  pisoteados causam tanta preocupação quanto os comunistas assassinados. Tio Boonmee parece feliz com o pouco que lhe resta, sua família reunida em carne, osso e espirito. Os fantasmas são lembranças do passado, pessoas, objetos, momentos que tremulam ao vento e som da natureza em um equilibrio comparável ao visto nas produções de Andrei Tarkovsky.  Tio Boonme prende a atenção do espectador com a dúvida do que representaria tudo aquilo, a imersão em um cinema de intenções desconhecidas, local onde não há previsão clara do que ocorrerá. A sedução percorre toda a tela, existem vários fantasmas e não há como afirmar que eles sejam apenas os declarados mortos. Aqui o conceito de fantasma é amplo e emplaca também os marginalizados. O terceiro mundo vai explodir!

Dificil se precipitar com qualquer conclusão ou consideração. Temos o cinema poético onde cada verso, cena ganhará seus próprios significados para cada individuo. Para este que vos escreve fica marcada a cena final, uma hipnose pelo meio de comunicação, que destrói o sujeito transformando-o em fantasma. O macaco fantasma violentado pelo homem, sua ganância e destruição. Não há dúvidas que trata-se de uma alegoria do real tão profunda para ser explicada em palavras que Weerasethakul preferiu condensar em imagens o cinema que hipnotizará pela beleza mas não explicará pela razão. Apareceu mais um cineasta para guardar o nome, desta vez sem a desculpa de ser um ilustre desconhecido.

Assista ao trailer de Tio Boonme

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