Poucos dias atrás comprei um catálogo com a filmografia de Michelangelo Antonioni. Procurava um material impresso sobre meu diretor italiano preferido (ao lado de Sergio Leone), artigo não muito fácil de ser encontrado no Brasil. Admito ser admirador de Antonioni desde o primeiro contato com Blow Up e Zabrinskie Point, filmes onde a imagem denota um sentido que talvez supere qualquer diálogo. Por tal, e entre outras razões, Antonioni sempre foi conhecido como o diretor da incomunicabilidade, rótulo desagradável ao cineasta de acordo com o documentário Antonioni por Antonioni de Carlo di Carlo. “Eu comuniquei a incomunicabilidade. Como posso ser incomunicável por tal?” Eis a principal defesa do mestre que começara no meio artistico ainda jovem, tocando violino,  atividade logo abandonada porque Antonioni tinha tique nervoso.

Antonioni começara exercer a tarefa de diretor um tanto tarde após uma carreira de crítico de cinema. Com as entrevistas percebemos o ranço do cineasta  com o cinema americano, deveras comercial e afastado da veia artistica tão valorizada. Antonioni conta uma experiência inusitada em uma instituição para esquizofrênicos. O diretor que havia preparado todos para uma cena perdera o controle da situação a ponto do responsável desligar a luz e encerrar a tomada. Lembranças que escondem as dificuldades pelas quais o cineasta passou durante toda a carreira quanto a produção e distribuição de suas obras. Fracassos na Itália que ao mesmo tempo faziam sucesso no Japão. Aspectos culturais dificeis de serem mensurados. Tais situações só enriquecem o trabalho de um diretor simpático ao relatar a própria carreira mas tímido ao falar de sua crença ou não em Deus, tema importante para sua nação, berço católico.

Antonioni emociona no gesto simples, na serenidade com que expõe suas idéias. Nenhuma das cenas de bastidores mostra um diretor descontrolado, pelo contrário ele era duro mas isso sequer é notado pelo espectador. Ao subir no palco para receber os merecidos prêmios não pula de alegria a la Roberto Benigni. É um italiano contido, reflexo de sua personalidade e época. Mesmo ao receber o Oscar honorário em 1995 ele nos contenta com um Grazie enquanto todos o aplaudem de pé. Sua visão diferenciada dos atores, que segundo Jack Nicholson seriam corpos em movimento dão o tom de suas obras nas quais ele revela – não sou bom com diálogos. Nem precisaria. Sua visão é poética, percebemos quando relata que gostaria de filmar em todo lugar novo que conhece. Antonioni prefere realizar externas, deixando a Cinecittá livre para o grande Fellini.

O documentário é curto, engrenando do meio para o final quando aos poucos começamos a conhecer um pouco mais do sujeito  tão misterioso, pelo menos a mim. Lembro-me de uma passagem do documentário Coração Vagabundo, na qual Antonioni revê o final de Passageiro: Profissão Repórter, uma cena emocionante. Michelangelo falecera justamente no mesmo dia de Ingmar Bergman. Para tristeza de qualquer cinéfilo, o dia em que dois gênios foram jogar xadrez em outra dimensão.

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