A nova produção do iraniano Abbas Kiarostami é confusa, sobretudo pela narrativa sem caminhos definidos. A dúvida sempre reside no espectador – onde será que essa estrada vai dar? O que acontecerá depois do café? Haverá uma reconciliação no quarto do hotel? Como poucos Abbas faz um filme tão inusitado que nosso principal refúgio são os dialogos, geniais e que extrairam uma das melhores interpretações da boa carreira de Juliette Binoche, contradizendo claro o pensamento de Gerard Depardieu. A aparente confusão não diminui o filme, pelo contrário, trata-se de uma estratégia do diretor que passa por uma renovação profunda em sua carreira. Abbas é daqueles que faz muito com pouco, venerado internacionalmente mas temido em seu próprio país faz um filme que reune uma francesa e um inglês na Itália, retrato de uma sociedade mesclada e sua dificil comunicação. Se existiram mestres como Antonioni para discorrer sobre a dificuldade da comunicação, Abbas usa a mesma e evidencia – mesmo com as discussões não nos entendemos.

A compreensão deve sofrer pequenas mudanças quando assistir o começo do filme, já que perdi a hora na transição de uma sala à outra. Cheguei justamente na discussão da personagem de Binoche com o filho, um conflito de gerações que já demonstrara a riqueza dos diálogos e da narrativa. O encontro da francesa com o inglês em uma pequena cidade da Toscana revela sentimentos antagônicos, ela deslumbrada por tudo que a envolve parece lamentar a própria situação projetando nos casais de noivos o seu desejo. Enquanto o inglês vive uma fase blasé, querendo o básico – tomar um café, almoçar e beber um bom vinho. Ela parece viver um sonho enquanto ele a realidade. A paisagem deslumbrante da Toscana contrapõe a crise entre o feminino e o masculino. As estátuas se amam, os noivos se amam enquanto os mais velhos aparentemente discutem. O termo cópia não seria uma alusão ao real e ao inventado? Não há sucesso na procura pelo original, somos cópias.

Incrível perceber que em diálogos tão longos o diretor arranque sorrisos e gargalhadas da platéia. Cada diálogo parece comportar um climax próprio como o que ocorre na cafeteria, cena na qual Juliette e a dona do estabelecimento discorrem entre outros assuntos sobre o papel da mulher no casamento. Comportamentos copiados e reproduzidos há séculos. A discussão sobre a estátua da praça (que conta com a participação de Jean-Claude Carrière) é engraçada por apresentar um casal maduro, espelho do futuro. Quando Binoche vai ao encontro deles espera por respaldo para seu deslumbre, a afirmação que a arte é de fato arte. Porém logo percebe que o que pretende ouvir é a reprodução do que já falara. Copie conforme!

Binoche se produz, usa batons, brincos mas lamenta que o inglês faça a barba a cada 2 dias. Desleixo de quem não se importa tanto com as aparências e a opinião alheia. O inglês é reservado, preferindo sempre ir atrás da francesa, mesmo quando toca-lhe o ombro de forma tímida. Cada gesto revela aos poucos a característica de cada personagem. Há uma particularidade no filme de Abbas que lembra O Ano Passado em Marienbad de Alain Resnais – o fato de não sabermos se de fato aquele casal se conhece de longa data. E o que seria conhecer? Um filme que merece ser revisto como tantos outros. Abbas parece ter surpreendido a todos, muitos críticos estão sem palavras, travados com tal produção. Talvez a resposta do mistério esteja guardada com as estátuas da Toscana. Copie conforme!

Assista ao trailer de Cópia Fiel

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