99 não é 100. Eis a definição de um dos catadores de material reciclável para traduzir a importância de cada lata metálica ou garrafa pet recolhida no enorme aterro do Jardim Gramacho no Rio de Janeiro. Tamanha simplicidade ganha proporções emocionantes ao final de Lixo Extraordinário, documentário que acompanhou o trabalho de Vik Muniz com a comunidade de catadores do Jd. Gramacho. O filme não chama atenção pela sinopse, apesar do nome forte de Muniz e o interesse pelo novo trabalho de João Jardim (Pro Dia Nascer Feliz) que atua no longa como co-diretor. Não há como mensurar o impacto que tal produção provoca ao arremessar o espectador na pobreza extrema de um dos Estados mais importantes do país. Não poderia haver maior abismo entre o lixo descartado e as grandes galerias de arte, fato totalmente superado por Muniz e sua idéia – sair do conforto de sua residência nos EUA e passar uma temporada registrando o duro trabalho dos catadores de material reciclável.

O documentário começa apresentando Muniz, cortes do programa do Jô demonstram o reconhecimento internacional de nosso personagem e sua dificuldade de sobreviver nos EUA quando partiu do Brasil para tentar a sorte ainda nos anos 80. Um dos primeiros turning points da vida de Muniz foi ao ser baleado em uma discussão, o dinheiro da suposta indenização serviu para embarcar o futuro artista ao novo mundo. Nos EUA ocorreu um dos primeiros contatos de Vik com o lixo ao trabalhar de faxineiro de uma grande rede comercial. O documentário não esclarece como Muniz passa de faxineiro a grande artista contemporâneo como ele mesmo define durante a produção, o mote serve apenas para ilustrar que Muniz passara por dificuldades não sendo apenas um burguês querendo se aproveitar da miséria alheia para obter lucro.

A chegada a “cidade do lixo” causa estranhamento mas aos poucos a equipe se acostuma, inclusive com o cheiro de azedume, eis a capacidade de mutação do homem, seu condicionamento e adaptação a certas condições. A quantidade de lixo torna a fotografia do filme grandiosa ao captar as toneladas do esquecimento. O lixo, desprezado pela sociedade está nas mãos de pessoas com histórias tão belas como qualquer outra. Certa altura o próprio Muniz não entende como alguns podem se achar melhores que os outros e cada personagem marginalizado passa por uma transformação em decorrência do processo imposto pelo artista. Incrível o relato sobre os livros encontrados por Sebastião, o líder da cooperativa dos catadores, entre os quais O Príncipe de Maquiavel, que logo assume novo dono.

A cooperativa presidida por Tião protesta contra o descaso da prefeitura do municipio ao vender o terreno onde centenas de pessoas trabalham. As dificuldades crescem quando a cooperativa é assaltada e o próprio Tião não suporta tamanha tragédia. Histórias bem encaixadas de personagens que convivem no aterro do Jardim Gramacho, vidas que se cruzam durante a produção artística de Muniz. As fotos dão lugar a parte final do projeto, projetadas em larga escala – a montagem das imagens com o material coletado no aterro conta com a ajuda dos fotografados, envolvimento tão forte que a equipe discute qual rumo tomar ao perceber que ao apresentar melhores condições, tais pessoas não desejam voltar ao cotidiano anterior. Mesmo assim Tião segue com Muniz para Londres, local onde ocorrerá o leilão da obra Marat Sebastião, inspirada em A Morte de Marat de Jacques-Louis David. O valor arrecadado é doado à cooperativa em uma das cenas mais emocionantes do documentário.

Tião e Muniz discorrem sobre a loucura do artista, do comprador e sobre o entendimento da arte, momento em que questionamos nossa própria conceituação. Nunca percebera a arte com papel social tão forte, saindo do completo abismo de um lixão para charmosas galerias de arte moderna. A transformação social ocorrida, mesma que pequena, fora fantástica e sobretudo real se percebermos que quando Vik pendura os quadros nas casas das pessoas que retratou, as mesmas tem uma nova percepção sobre si e sobre a arte. Todos assumem novos papéis, emergindo da pobreza extrema, conseguem novos trabalhos, casam, etc. Quanto aos demais a cooperativa parece preparar a transição com o fim do aterro do Jardim Gramacho. Muniz plantou uma semente e ao final quem aparece no Programa do Jô é Tião, agora com a ambição de ser Presidente da República. O documentário vale pelo reconhecimento destas pessoas e suas dificuldades, uma pena que para o governo e boa parte da sociedade 99 ou 100 sejam a mesma coisa.

Que a arte possa sempre provocar boas reflexões, instigando a sociedade por melhores condições de vida. Parabéns Vik Muniz.

Assista ao trailer de Lixo Extraordinário

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