O primeiro filme visto na Mostra de SP é um tanto tentador. O personagem principal é um artista cercado de mistério,  fato que valoriza seu trabalho, propiciando infinitas discussões. O primeiro aspecto contudo é um questionamento – Quem é Banksy? O nome que virou marca ainda não tem um rosto, uma voz, mas já conta uma história própria, narrada nos muros de Londres, Los Angeles e da Palestina. Exit Through the Gift Shop adiciona mais dúvidas àqueles que já conhecem a arte de Banksy. O mito cresce e a internet foi o meio de comunicação essencial para que sua obra se propagasse por todos os continentes. Por tal considero os desenhos no muro de Gaza como o ápice de sua produção até o momento, já que fomentam a reflexão sobre um dos conflitos políticos-religiosos-sociais mais importantes da história da humanidade. Mas são os simpáticos ratinhos que o marcaram no meio artístico.

Os ratos de Banksy são o simbolo da arte marginalizada. O que é uma ratazana senão um animal que vive escondido nos esgotos, transmissor de doenças e responsável por uma das piores epidemias da história da Europa – a peste bubônica. O rato de Banksy é esperto, carrega placas, ouve música e usa os acessórios da periferia, projeção humana famosa pelo trabalho de outros como Walt Disney. Mas os ratos de Banksy passam longe  de Mickey Mouse, a presença congelada, indevida e ilegal  intriga todos que olham para a produção e já a definem como o artista – Banksy! Antes apagados, os desenhos são cultuados e vão a leilão em uma mercantilização que talvez nem o próprio artista acredite. Os muros de Londres não são mais os mesmos desde que Banksy e outros elevaram a street art a um patamar inimaginável em décadas anteriores.

Nada melhor ao mercado do que tentar desvendar o mistério, para tal a produção dirigida por Banksy reune boas histórias de artistas, antes perseguidos, rejeitados pela sociedade, mas que ao final atingem reconhecimento nas principais galerias de arte do globo. Eis o Happy End da Street Art. Porém o filme em forma de documentário cai inicialmente nas mãos de Thierry Guetta, um francês obcecado pela câmera, objeto que assume um experiencialismo continuo, servindo unicamente de registro da vida pessoal do então diretor. O filme engrena quando Guetta começa a acompanhar Space Invader, sujeito e obra que se misturam pelos subúrbios franceses. Não satisfeito o camera começa a se enturmar com diversos personagens da arte de rua, momento no qual percebera que poderia realizar um documentário sobre o assunto.

Guetta conhece o trabalho de Banksy mas o inglês permanece escondido inclusive para os demais artistas. Se a montanha não vai a Maomé, Maomé vai até a montanha e o então encontro inesperado ocorre em Los Angeles. Banksy deixa filmarem seu processo de criação mas não seu rosto, a voz também é adulterada. Mister M mostra o truque mas nunca a identidade. Percebendo que Guetta tinha vasto material mas não a vocação para direção e montagem o material é adotado por Banksy enquanto Guetta tenta alcançar seus 10 minutos de fama organizando a própria exposição de arte. Se eles podem por que eu não? Eis o pensamento de Guetta que faz uso da popart e do dadaísmo para justificar suas criações. A discussão de quem seria Banksy morrera no inicio já que a transformação da street art em elemento cult e sua migração para as grandes galerias é a peça fundamental da produção. Aqui o texto A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica assume caráter empírico. O ilustre Walter Benjamin carregaria uma cópia do filme junto ao texto.

O uso da metalinguagem também faz parte do processo desde a discussão da dificuldade de se fazer um filme ou a de se montar uma exposição do então desconhecido Mr BrainWash (pseudônimo de Guetta). Essa produção é uma daquelas raridades que ainda serão utilizadas pelos estudantes de arte em pesquisas e trabalhos, já que infelizmente temos pouco material registrado sobre Banksy além de fotos de suas obras. A arte de Banksy deveria se tornar patrimônio da humanidade pelo simples fato de causar reflexão.  Porém não podemos superestimar a obra e o artista.  A Inglaterra tenta preservar a arte de Banksy mas a pergunta que fica é porque só a dele e a de Space Invader? Ao final a crise do crítico e espectador bate a porta – O que é arte?

Assista ao trailer de Exit Through the Gift Shop

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