Certa ocasião perguntaram minha opinião sobre Tropa de Elite. Depois de apontar alguns aspectos técnicos disse que aprovava o filme, sobretudo pela discussão (de poucos setores) fomentada na época do lançamento. Capitão Nascimento, um fascista travestido de policial,  tornara-se então um dos principais personagens do cinema nacional contemporâneo. Citado por bandidos e mocinhos, o capitão do BOPE não temia nenhum dos lados atuando como juiz de uma sentença já conhecida – a tortura e a dor. Contudo poucos lembraram da excelência do personagem construído por Wagner Moura depois de dolorosa preparação. José Padilha, reconhecido pelo ótimo documentário Ônibus 174, ganhou projeção mundial com o urso de ouro do Festival de Berlim, entregue pelas mãos do cineasta Constantin Costa-Gavras, simpatizante da esquerda política. Opostos que se atraem?

Tamanha comoção pública só poderia render uma continuação, mas aquele antiherói predestinado a formar soldados universais amadureceu profissionalmente. Mais velho e com filho adolescente, o capitão sobe de patente, Coronel Nascimento responsável pelo Bope e suas investidas táticas pelos selvagens morros cariocas. O erro em uma operação e o destino do coronel e seus subordinados muda totalmente. Nascimento é abduzido pela secretária de segurança pública, restrição que o coloca de frente com o universo político da corporação. A corrupção dos diversos setores envolvidos fica evidente mas o coronel, alçado a defensor da honestidade, luta contra a máquina estatal. Dessa vez Nascimento não está sozinho, sequer cercado de máquinas de matar, o agora Deputado Fraga é o co-piloto do combate ao pior inimigo – o Estado. Aliás o roteiro prega uma peça maldosa no Coronel, Fraga (o professor esquerdário do primeiro filme) casa-se com a ex-esposa de Nascimento, situação com a qual ambos os lados não lidam bem.

Tropa de Elite 2 usa bem a narração em off, recurso que subjulga a inteligência do espectador se mal empregado. A voz de Nascimento conduz a percepção do personagem frente a situação, algo que parece propenso a desenvolver o senso comum da massa. Como no primeiro filme muitos colocarão a culpa nas entidades corruptas, esquecendo a corrupção própria. Uma viagem pela história do país e a constatação que a primeira corrupção ocorreu na relação entre portugueses e indios. Mas o passado que justificaria o presente não pode trancar o futuro. Em todas as instâncias o ato de subornar e usar de malícia para ter vantagem sobre o outro é passível de punição. A crítica de Padilha é clara, evidente, o roteiro bem elaborado para demonstrar que há interligação entre ações e consequências.

A máquina estatal é forte, um dragão de sete cabeças que se multiplica a medida que alguns pescoços são decepados. Nascimento é uma alusão a ressureição necessária a um país, principalmente Estado, tendo em vista a concentração da atividade no Rio de Janeiro. Do outro lado está a maquiavélica mídia na figura do Deputado Fortunato, uma caricatura de Datena, e seu jornalismo agressivo. As milicias, formadas por policiais corruptos desfilam pelos morros a fim de uma participação nos lucros. O bandido comum desaparece, vitima do próprio sistema para o qual trabalha. Em época de eleições nada melhor do que apresentar ao Estado sua culpa, falência plena. Nem com a ajuda de Rambo, o fim da corrupção aparece como projeto a longo prazo. Porém algo é inegável, a força da política, em qualquer meio, a relação com o outro é fundamental.

Padilha volta com a discussão necessária, menos violento e mais político Tropa de Elite 2 é um filme mais refinado se comparado ao primeiro. Os personagens já se formaram, amadureceram e entraram em crise. O deputado Fraga  é o principal derrotado entre a turma política, aos poucos seus ideiais são esmagados pela maioria corrupta, grupo com memória. O voo provocativo por Brasilia só  desenvolve a revolta com toda a tropa de corruptos residente no interior nacional mas também pessoal. Sem o frisson do comércio ilegal, Tropa 2 vale o debate em uma época em que os votos valem muito. Capitão Nascimento vira o Cavaleiro das Trevas, capaz de se sacrificar pelo bem comum.

Assista ao trailer de Tropa de Elite 2

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