Hoje acompanhei a exibição do filme Moscou, Bélgica de Christophe Van Rompaey, integrante do evento aberto aos professores da rede pública de ensino que ocorre aos Sábados no Unibanco Artplex. Antes da sessão sequer sabia que esse seria o escolhido ou mesmo sua história, em cima da hora como sempre só pude observar seu título e gênerocomédia. Não simpatizo com as atuais comédias americanas que pecam pelo excesso e pelos clichês emplacados quase sempre pelos mesmos atores. Contudo gosto do gênero, seja na sutileza ou humor negro as produzidas na Europa me fascinam, sobretudo pela simplicidade. Dentre minhas recentes preferidas estão As Aventuras de Moliére e Você é tão bonito, ambas francesas.

Moscou, Belgica não precisa ir até a capital russa para se destacar no grupo das comédias citadas, basta apresentar o que chamamos de acidente do destino, o encontro inusitado entre duas pessoas, uma mulher recém divorciada e um caminhoneiro, ambos solitários e mergulhados no passado. A necessidade do caminhoneiro fala mais forte e ele parte em busca da mulher turrona que não exita em desprezá-lo ao mesmo tempo que o chama indiretamente. Ela é Matty (Barbara Sarafian), 10 anos mais velha e com 3 filhos, parte de uma família nuclear desintegrada, ele é Johnny (Jurgen Delnaet), caminhoneiro galante que não esconde os erros do passado quando questionado.

A procura da harmonia é o grande entrave para o relacionamento, uma aventura se baseado na vontade de Matty em voltar aos braços de Weisner (Johan Heldenbergh), seu ex-marido, que também a trocara por uma mulher mais nova. Tais trocas e desencontros amorosos revelam dúvidas e necessidades do Homem na sua busca interna pelo que define como felicidade. Matty tem receio do novo ao mesmo tempo que teme o passado, preferindo ficar estagnada aguardando o retorno do ex-marido. O ótimo roteiro faz com que Johnny e Weisner comecem a disputar Matty, embaraçada pela situação, ela vive uma crise de meia idade e compartilha parte de suas angústias com a companheira de trabalho nos correios.

Além do ótimo roteiro, o filme faz bom uso do campo simbólico, a filha de Matty lê o futuro através do tarô dando pistas ao espectador do que ocorrerá na trama, uma das cartas é emblemática ao definir que a mãe terá que superar um obstáculo e ouvir o próprio coração. Tal obstáculo aparece como a porta do prédio na volta noturna de Matty após sair do bar em que Johnny cantava Mona Lisa sem a mesma finèsse de Nat King Cole. Se atravessar a porta Matty escolhe voltar ao ex-marido, sua outra opção é voltar e escolher Johnny. Independente da escolha realizada ela colocará ponto final em sua dúvida do momento. Outro ponto de destaque está na figura do sujeito que vai até os correios para entregar cartas que informam falecimentos, um idoso que nutre uma paixão platônica por Matty. O homem cita o caso de uma mulher que na crise meia idade  suicidara-se na linha do trem.

A cena final não poderia expressar melhor essa citação, Matty caminha feliz a beira da linha do trem o que define a superação de sua personagem ao mesmo tempo que demonstra o quanto a linha era tênue. Moscou, Bélgica promove algumas risadas com uma proposta simples, um filme agradável para assistir qualquer hora do dia, qualquer dia da semana, um olhar sobre a Bélgica, alguns costumes. Nenhuma inovação, apenas a satisfação de sair da sala de cinema sem sentir-se obrigado a gargalhar.

Assista ao trailer de Moscou, Bélgica

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