Qualquer fã de filmes de ação que tenha experenciado os anos 80 e 90 sonhara com uma reunião dos grandes astros da pancadaria. O fato só ocorreu plenamente este ano com o lançamento de Os Mercenários (The Expendables, 2010) de Sylvester Stallone. Talvez, como veremos a seguir,  melhor seria se tal encontro não ocorresse, contudo na atual conjuntura hollywoodiana interessada em engordar o bolso com o saudosismo alheio, a idéia de Stallone seja mais do que justificável. Ator, diretor e produtor, Sylvester já foi do céu ao inferno com suas produções, aclamado por alguns com Rocky e odiado por outros por Rambo, este um dos filmes mais analisados pelos Estudos Culturais de Henry Giroux e Douglas Kellner.

Talvez fosse mais fácil citar os ausentes na grande produção – Jean-Claude Van Damme, Jackie Chan, Vin Diesel e Steven Seagal outros que construíram fama ao distribuir socos e pontapés. A estratégia de Stallone não contaria com tais já que além do custo elevado os mesmos não teriam espaço. O maior problema de Os Mercenários é o excesso, seja de lutadores e lutas, seja de nomes famosos ou de velocidade. Arnold Schwarzenegger e Bruce Willis fazem ponta apenas, enquanto os demais se distribuem no grupo mercenário de Stallone. Não existe qualquer construção social dos personagens a não ser de Jason Statham, a exceção que tem uma vida paralela, uma namorada que o troca, estratégia para um duelo machista ao final.

Mickey Rourke é o mecenas e tatuador que mal ajusta a agulha ao corpo de Stallone. Pior seria caracterizar Giselle Itié, imagem que parece adicionada através do Photoshop na película mercenária. O que não podemos criticar é a ação contida na produção, a qual utiliza-se perfeitamente dos cortes rápidos, tão rápidos que é impossível prever quantos segundos dura cada tomada nos planos de ação. Qualquer sujeito que admire um corpo a corpo violento entre parceiros do mesmo sexo desfrutará do filme com bons olhos. A máxima do esquadrão americano que salvará os países centrais e sulistas de sua própria ignorância democrática é o que move o grupo de Stallone destinado a salvar a vila da violência através da própria.

Explosões, tiros, corpos em um roteiro dilacerado. Não há explicação para a existência do grupo. Descartes diria – Atiro logo existo – assim como qualquer outra atividade remunerada existem os mercenários, músculos em prol do bem-estar social. Não há qualquer pudor do personagem principal  ao caracterizar os soldados da vila como macacos amestrados assim como não existiu o de Stallone ao definir nossos habitantes prontos para bater palmas e aceitar a simbologia por detrás do BOPE, a caveira com uma faca representaria nossa necessidade mercenária. Talvez Stallone precise salvar o Brasil do tráfico assim como Rambo salvara o seu derrotado EUA dos selvagens vietnamitas.

O filme termina com a definição do verdadeiro macho que cospe balas. Após salvar a donzela Itié do temido pai e da  descontrolada CIA, Stallone a rejeita perpassando o quão bom é. Seu envolvimento é a conquista, deveras infantil, aquela que necessita de um brinquedo novo, o simples desejo de um objeto, comprado e deixado de lado. A volta completa do grupo mercenário denota a força de cada um, ninguém sucumbira, nem poderiam já que os mesmos voltarão às ações solitárias após o tento de Stallone. Não importa o quanto o roteiro seja fraco, o filme representa a luta de um grupo já consagrado procurando um espaço perdido como a volta de uma famosa banda de rock para tocar os mesmos acordes. Eis o cinema na sua vertente mais mercenária, vale qualquer morte por um punhado de doláres. A confirmação vem com a facada final de Statham, direcionada ao próprio espectador, infelizmente o que mais apanhou durante toda a obra.

Assista ao trailer de Os Mercenários

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