Se Sigmund Freud ainda respirasse, daria um suspiro de felicidade ao final de Inception, novo filme de Christopher Nolan, diretor consagrado por ressuscitar o homem morcego. Com tantas críticas positivas e elogios, o principal questionamento recai sobre quais elementos credenciariam a produção, já considerada favorita, à vencer diversas categorias da maior premiação da indústria americana. Em primeiro lugar tem-se a dívida da academia perante Christopher, a injustiça com seu Cavaleiro das Trevas, fatos importantes para a opinião especializada e pública que alteraram o sistema de escolha do “Melhor Filme” nesse ano. Em A Origem, Nolan volta com outro ótimo roteiro,  permeado pela confusão do seu objeto de estudo – o sonho.

O misterioso inconsciente já foi tema de diversos filmes, e uma de suas manifestações, o sonho, é comumente utilizado pelo cinema. Não há melhor representante do univero onírico que Federico Fellini, diretor italiano, lembrado por Leonardo DiCaprio (Cobb) em uma das entrevistas de promoção do filme. A produção começa com um sonho dentro de outro sonho, técnica utilizada por Cobb para que a vítima não suspeite da invasão de sua mente. Saito (Ken Watanabe) é o primeiro teste no qual Cobb fracassará, seu inconsciente  cria as projeções humanas que aparecem no sonho em questão e a figura de sua esposa Mal (Marion Cotillard)  trai sua estratégia de roubar informações de Saito. O insucesso fragmenta a equipe de Cobb e faz de Saito o próximo cliente com o qual terá a esperança de regressar ao lar arruinado.

Mais do que um simples personagem principal, Cobb carrega parte das chagas que Christopher Nolan elencou a Bruce Wayne em O Cavaleiro das Trevas, um anti-herói deprimido em busca de redenção e capaz do sacrificio pelo bem maior. Em sua última missão Cobb irá atrás de uma nova arquiteta, Ariadne (Ellen Page), que além de construir a estrutura física do sonho consegue desconstruir as principais dúvidas do espectador durante a trama. O trabalho de invasão acontece em equipe, mas a divisão é Fordista tendo em vista que cada um cumpre um papel diferente para o sucesso da missão como um todo. O inconsciente é instável e as brincadeiras de Ariadne a caracterizam como um virus, curioso a ponto das projeções de Cobb funcionarem como glóbulos brancos na restrição e proteção do espaço.

Cobb ainda irá atrás de Eames (Tom Hardy), um ladrão cafajeste e Yusuf (Dileep Rao), químico que desenvolve uma fórmula forte o bastante para que  a equipe ao imergir nos sonhos não acorde antes de terminada a missão. O sinal para a volta ao universo real gera uma coincidência agradável, nada menos do que Non, Je ne regrette rien, música de Edith Piaf, entoada pela bela Cotillard na recente cinebiografia da cantora. No entanto, a trilha-sonora não é tão forte quanto imaginava, confesso que esperava mais de Hans Zimmer após ler seus depoimentos sobre o processo de desenvolvimento, contudo nada que interfira ou prejudique a obra, pelo contrário está no mesmo nível.

Por fim prefiro voltar a esposa de Cobb, Mal, personagem que justifica o nome. Mal é a pedra no sapato de Cobb, seu principal desafio, superação. Pretty woman que lembra o mesmo tormento pelo qual passara Teddy Daniels em Ilha do Medo, a de uma lembrança impossível de ser esquecida. Mal está aprisionada no inconsciente de Cobb, um trauma dificil de ser enfrentado, visto que seu afastamento de Cobb ocorreu através da perda da dimensão que separa o que é real do sonho, risco que Cobb também corre por não conseguir aceitar a perda.

Mal é vitima e vilã, guilty not guilty, o tormento do masculino, sofrimento destruído pela raiz no final. Final que diga-se de passagem é extraordinário, deixando ao espectador a chance de interpretar a produção como queira, fato que arrancou suspiros e aplausos na sessão em que estava, momento que demonstra o sucesso da obra e a qualidade que Nolan emprega aos roteiros que desenvolve, bem estruturados, com ritmo, personagens complexas, etc. Aos 40 anos, o ainda jovem Christopher Nolan montou um labirinto, capaz de atrair os mais exigentes uma cartada no auge de quem não quer deixar o pião parar de rodar.

Abaixo farei comentários específicos sobre cada sonho, para os que já assistiram a obra.

Sonho 1 – O primeiro sonho é a porta de entrada para o universo onírico de Nolan. Chove forte em NY, todos participam. É o sonho mais próximo da realidade, local onde ocorrerá a primeira baixa – Saito, o capitalista sem escrúpulos, baleado, agoniza no sonho já que sua morte não significa a volta imediata ao universo real. O alvo é Robert Fischer (Cillian Murphy), mas para implantar a idéia na mente do jovem empresário será necessário voltá-lo contra seu tio, Peter Browning (Tom Berenger). O condutor do sonho é Yusuf, encarregado de despistar as projeções de defesa de Fischer. Este sonho é rodado em slow motion ao final do filme, visto o efeito dominó que seu fim produziria.

Torre de Babel – Entre o sonho 1 e o 2, Ariadne conhecerá onde  Cobb esconde a esposa, sua tragédia pessoal. O local possui andares onde cada piso abrigaria uma lembrança específica de Mal. A cada descida o drama fica mais forte, evidenciando o transtorno contínuo de Cobb.

Sonho 2 – Talvez o mais distante da realidade e o mais próximo do que conhecemos em Matrix. Há a perda da gravidade, bem adaptado para as lutas estéticas entre Arthur (Joseph Gordon-Levitt), o condutor do sonho, e as projeções de defesa. Antes sequestradores, a equipe de Cobb passará a ser a defesa de Fischer, concluindo assim o plano inicial de voltá-lo contra o próprio tio. Yusuf não garante a segurança no primeiro sonho, fato que gera instabilidade no segundo.

Sonho 3 – Não há explicação plausível para a mudança drástica de ambiente e clima, como trata-se de um sonho não existe essa necessidade. Eis o sonho onde Fischer esconde a porta para a inserção da idéia que Cobb precisa. Metaforicamente está trancado em um cofre gigante, protegido pelas projeções de Fischer, cada vez mais fortes. A ação domina o sonho, teoricamente o final. A avalanche é um sinal de que as coisas não estão bem no sonho 1 e 2. Fischer consegue entrar no compexo onde o cofre guarda a revelação final mas é surpreendido por Mal. O fracasso da missão leva Cobb e Ariadne ao sonho 4.

Sonho 4 – É o vazio na mente de Cobb, uma estrutura apocaliptica. O local onde Cobb e Mal envelheceram juntos está em ruínas. Robert Neville (I Am Legend) está escondido em algum lugar. O mar está a ponto de engolir os prédios que desmoronam, Cobb tem a última chance de enfrentar Mal e sua lembrança, fraquejando novamente. Ariadne salva Cobb e Fischer, o último volta ao sonho 3 e consegue abrir o cofre, cena que lembra o final de 2001: Uma Odisséia no Espaço, com a entrada no quarto e olhar para o outro que é si mesmo, no caso do filme de Nolan um olhar do filho ao pai. É a hora de voltar sonho por sonho na ordem inversa. Todos saem da Van do primeiro sonho, menos Cobb.

Final – A conversa de Fischer e Browning/Eames sob chuva lembra uma cena de Climas de Nuri Bilge Ceylan onde a rotação da câmera provoca o mesmo efeito. Cobb acorda no inicio do filme onde encontrará Saito, um homem velho ainda aprisionado no mesmo ambiente do seu sonho inicial, onde fora vitima de Cobb. O fato provoca mais confusão. O pião gira constantemente distanciando a situação do real. Cobb emerge dos sonhos com os demais e desembarca para reencontrar a família mas lá está o pião e a eterna dúvida do espectador.

Concluindo, o pião já não servia como totem para Cobb, visto que a esposa o esconde no cofre no quarto sonho, ela o tinha e teoricamente Cobb também ao mesmo tempo. Portanto o objeto é fundamental na compreensão do filme, não só por continuar girando ao final mas por ser ele o responsável em separar o sonho da realidade para o personagem, função que não cumpriu. Cobb plantou uma idéia na própria esposa, espaço onde também pode ter se perdido.

Eis um filme rico em interpretações. Preciso ver mais de uma vez.

Assista o trailer de A Origem

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