O que esperar de um documentário? Muitas coisas. Sempre me impressionei com a montagem, visto que a história, algumas vezes pronta, aguarda um encaixe para seduzir o espectador. O primeiro documentário pelo qual me apaixonei foi Noite e Neblina de Alain Resnais, o qual paralisou pensamentos e despertou minha curiosidade pela técnica do cinema. Alguns gostam de definir o gênero como recorte da realidade. Discordo, visto que se recortado já se configura como ficção, o cinema não tem conexão alguma com o que é real, o simples ato de entrar em uma sala escura e observar imagens projetadas em um telão parece-me parte da fantasia que cerca a sétima arte.

Apaixonado encontrei um documentário que já recebera boas críticas da mídia epecializada. Uma noite em 67 de Renato Terra e Ricardo Calil trata de um momento histórico para a música popular brasileira, o ano de encontros e parcerias musicais memoráveis. Se os músicos e suas composições fossem objetos, o teatro que abrigou o evento estaria no mesmo patamar do Musee du Louvre. Sem precisar de comparações internacionais diria que seria dificil para um jurado escolher uma música dentre as finalistas. Ponteio de Edu Lobo, Roda Viva de Chico Buarque, Alegria Alegria de Caetano Veloso, Domingo no Parque de Gilberto Gil ou mesmo Beto Bom de Bola de Sérgio Ricardo.

Todos passaram pela fúria da platéia, um personagem a parte, capaz de enfurecer Sérgio Ricardo e exaltar Caetano Veloso. Necessário frisar que o festival ocorre em plena ditadura militar, portanto o encontro é propicio para descarregar emoções contidas pelo regime autoritário. Os depoimentos atuais dão a dimensão de como tal encontro fora estruturado como um programa de televisão com uma disputa saudável entre diversos cantores. Sequer imaginavam que ali estariam as raizes do Tropicalismo ou do Rock brasileiro. A guitarra, combatida dois meses antes, fora peça fundamental para a parceria entre Gil e os Mutantes, já Chico Buarque, filho do genial Sergio Buarque, isolou-se em suas influências e estilos. É de Chico a música que mais me encanta dentre as concorrentes – sua estrutura e a aceleração final com um arranjo peculiar me instigam.

Não só os atores principais, mas os coadjuvantes são peça fundamental para o documentário. Randal Juliano e Cidinha Campos, a tradicional dupla de repórteres não desenvolve questionamentos a altura do evento, mas sobretudo divertem como nos elogios ao jovem Chico Buarque ou na dúvida à Caetano Veloso sobre o que seria o Pop. O documentário consegue sintetizar muito bem a noite com as imagens de época e depoimentos atuais de alguns dos envolvidos. O produto final é um prêmio para a história da música brasileira. Parafraseando o escolhido da noite – Quem me dera eu tivesse a viola agora pra cantar! O grande vencedor foi o público ao gritar, espernear e uivar em plena construção histórica.

Assista ao trailer de Uma Noite em 67

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