Vai começar a Copa do Mundo. O velho discurso que enaltece esportistas como representantes de uma nação finalmente emerge do fundo do baú. As pessoas já perambulam de verde e amarelo pelas ruas  da terra brasilis e a mídia reserva enorme espaço para o que o brasileiro mais idolatra – o futebol. Pelo menos é o que imprimem nossos panfletários – Brasil, o país do futebol. 2 meses para esquecermos falcatruas políticas, mazelas sociais ou qualquer problema de baixo ibope. Inspira-se e respira-se um jogo envolvendo 22 camaradas, vasta maioria exilada no velho continente, figuras conhecidas mas distantes. A quem ganhar a glória, ao que perder o caminho de casa, dependendo da expectativa, uma volta tortuosa.

A mída esportiva é grotesca, nela sobrevive o senso comum, a comunhão da burrice de quem pergunta, de quem responde e de quem ouve. O gol é diferente mas o personagem é sempre o mesmo, usualmente com uma infância roubada, pobre, e com um grau escolar bem abaixo do aceitável. Rodeados por assessores de imprensa, eles já sabem a pergunta e a reposta ao final do jogo, cumprindo apenas o protocolo, preenchendo o  vazio da grade televisiva. O ceú e o inferno são vizinhos, separados por 90 minutos, a mídia precisa de seus bandidos e mocinhos e não há desconto para aquele que não sabe jogar. O próprio técnico,  apelidado de professor, parece o mordomo do filme de suspense – sempre o culpado. Nesse roteiro os papéis são bem desenhados fora das quatro linhas que envolvem o gramado.

Mas como entreter os espectadores sem o tão esperado combate entre as seleções? Óbvio, percorrendo e documentando todo o percurso, o que envolve assuntos esdrúxulos como a qualidade da bola utilizada no mundial, ou quem sabe a dureza do treinador nacional no trato com a imprensa. E assim os dias avançam sem qualquer proveito. Pobre Dunga, sua recepção em caso de fracasso será das mais violentas, receberá o troco da mídia que não afagou. Eis o preço para alguém que prefere seguir as próprias convicções, quase um ditador nas poucas mas bombásticas decisões como a escolha dos atletas para a disputa do mundial. Em caso de sucesso ele colherá poucos louros, a mídia não lhe dará tanto crédito, fruto de suas enervadas entrevistas ou do corte do privilégio da maior emissora televisiva do país.

Enquanto isso um grande relógio conta as horas para o ínicio do evento. Se o preview continua entediante, o review será farto de jogadas inesquecíveis ou de erros memoráveis. Tudo dependerá do resultado final quando o homem de preto levantar os braços e selar o final dos 90 minutos mais esperados do planeta. Eis um filme com final imprevisível e trilha-sonora com barulhentas vuvuzelas.

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