A imagem acima representa minha sensação ao término de O Escritor Fantasma, último filme de Roman Polanski. Não preciso tecer elogios ao diretor, o fiz anteriormente em outro texto quando de sua prisão. A situação continua delicada, Polanski está em detenção domiciliar na Suiça, aguardando novidades relacionadas ao seu caso. Tal contexto traz visibilidade ao filme de um diretor reconhecido por boas produções e imerso em tragédias pessoais. Além de receber boas críticas e o prêmio de melhor direção no último Festival de Berlim. Sério candidato a  receber o título de filme do ano, O Escritor Fantasma é uma adaptação do romance de Robert Harris que também desenvolveu o roteiro da produção.

O trabalho do escritor fantasma é ingrato, pois essencialmente quem redige o texto não ganha qualquer referência na construção da obra. Teoricamente o fantasma inexiste no plano real sendo parte do subjetivo de quem o enxerga. O cinema é um templo de escritores fantasmas que desenvolvem narrativas, mas não aparecem no plano ou sequer nos créditos. Os próprios espectadores transformam-se em fantasmas imersos na sala escura, apagados frente a luz da obra projetada. Em cidades tão populosas por vezes sofremos com a invisibilidade social, passamos por fantasmas frente ao olhar do outro. Tais idéias concluem que o fantasma sai do plano místico-religioso para o universo real com muita facilidade.

Polanski abordará a relação entre um escritor fantasma (Ewan McGregor) e seu biografado (Pierce Brosnan), ex-primeiro-ministro britânico acusado de crimes de guerra. O filme percorre o quão chato é o desenvolvimento de uma biografia política, para tal o escritor sem nome reverterá o trabalho de seu antecessor, morto após um aparente suicidio. Polanski é suficientemente tranquilo para colocar o ínicio de sua narrativa no limiar do lento mas bem contado e do devagar mas tedioso. Depois da boa introdução, eis que a narrativa prende o espectador quando o escritor fantasma começa a investigar a vida de seu objeto de estudo e todas as incongruências que a cercam.

A fotografia é sóbria, o roteiro possui ótimos diálogos que caminham entre o suspense e a comédia e a trilha-sonora pontua bem a parte final do filme. Os personagens são bem construídos, nenhum destaque individual mas sim coletivo. O exilio do primeiro-ministro e as fortes acusações que recebe podem ser metaforicamente associados a situação de Polanski, diretor que sabe como poucos contruir um desfecho, vide Lua de Fel e O Pianista. Aliás o final é elevado a outro plano, como uma música clássica dramática que aos poucos cresce até atingir o ápice sonoro.

O filme não inova pela inversão de papéis que produz, mas não posso negar que fiquei surpreso. Se constrói bem finais para suas obras, o destino do próprio diretor é misterioso e não depende mais somente dele. Polanski não tem domínio de sua tragédia pessoal, mesmo se a transformasse em ficção. Preso no real, o cinema talvez seja seu principal Habeas Corpus.

Assista ao trailer de O Escritor Fantasma

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