Ontem tive o prazer de ir à pré-estréia de Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague, produção de Emmanuel Laurent, presente em debate após a exibição do documentário. Uma das melhores experiências que tive com o cinema foi ao assistir Os Incompreendidos de Truffaut, marco da Nouvelle Vague e grande vencedor do Festival de Cannes de 1959, filme que me impulsionou a investigar um dos cineastas franceses mais importantes do século passado. Tal aproximação ocorreu sobretudo pela identificação, não só com a obra mas com a história de vida de Truffaut, retratada em alguns de seus filmes e na biografia escrita por Antoine de Baecque.

Antes de comentar o filme e a história dos envolvidos, este que vos escreve revela que nasceu no mesmo dia, mês e ano do falecimento de Truffaut, fato que aumenta o laço com tal cineasta. Pois bem, o roteiro da produção é do já citado Antoine de Baecque, biografo de Truffaut e também de Godard, sujeito que conhece bem a relação entre ambos. Composto essencialmente de arquivos de época, o documentário tenta transpor algo delicado, a história da amizade entre dois gênios e o rompimento abrupto de ambos. Para isso utiliza cenas de filmes e depoimentos de envolvidos como Jean-Pierre Léaud, ator que acompanhou a carreira de ambos e mereceria um documentário exclusivo.

Não existe algo que enalteça o documentário de Laurent além do seu objeto e do acervo impressionante que teve acesso. Sua decisão de estruturar o documentário como um cine-jornal com narrador e observador entre as cenas de época, pareceu-me tão didático quanto um livro sobre o assunto ou um especial para a TV. O brilho que falta a produção sobra aos envolvidos, a relação por um fio de Truffaut e Godard é demonstrada através de suas produções. Godard é o inovador, experimentalista, político enquanto Truffaut, clássico, crítico, cinéfilo. Porém seria absurdo colocá-los em posições antagônicas visto que se complementam.

Como em outras relações entre artistas – o ego fala mais alto. Depois de assistir A Noite Americana, Godard escreve uma carta à Truffaut com  fortes criticas ao filme,  diretor e ator. Não suportando, Truffaut escreve  uma carta-resposta de 20 páginas à Godard envolvendo não só questões profissionais como pessoais. Eis o término de uma relação de amizade, direção e produção. Muitos ainda se questionam sobre o motivo que teria levado Godard a iniciar a discussão, talvez a resposta esteja na carreira de Truffaut, praticamente apartidária se comparada a de Godard.

Senti falta de novos depoimentos, apesar de compreender a dificuldade que seria filmar Godard discursando sobre Truffaut, já que quando o faz sempre lança uma pérola que desmoraliza o velho amigo. Por fim, o filme de Laurent é uma boa base de dados para aqueles que querem conhecer ou saber mais da relação entre dois pensadores. Apesar das brigas e do ponto final é evidente que um sempre precisou do outro. Juntos Godard, Truffaut e os demais diretores da Nouvelle Vague desenvolveram uma Escola de Frankfurt do cinema ao questionar modelos ultrapassados, renovando não só a Sétima Arte como todo o pensamento acerca da época.

 Assista ao trailer de Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague

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