Sujeira e bagunça. Dessa vez elas não atrapalharam a Virada Cultural da cidade de São Paulo, mazelas engolidas por um espírito coletivo jamais visto nessa cidade. O centro inundado por pessoas de todas as tribos e vertentes em uma coexistência quase pacifica, atrapalhada por pequenas brigas e pela morte registrada após uma discussão. Eis a Virada Cultural, evento que cresce a cada ano, distribuindo espetáculos por toda a cidade, tentativa louvável de valorizar músicos e artistas de diversas categorias. Os banheiros químicos não agradaram mas não conseguiram atrapalhar a festa. Há quem defenda a extinção da bagunça organizada, outros frequentam as edições ansiando evento parecido no decorrer do ano.

Minha imersão começou pela instalação agradável em frente ao Teatro Municipal, um gramado com sons da natureza que esverdeou nossa selva de pedra.  No caminho ambulantes vendiam cerveja a preço de ouro, o próximo oasis era justamente o Largo da Misericórdia onde pequenas bandas se revezavam cantando marchinhas de carnaval conhecidas de todos. Dificil escolher um show em um catálogo tão vasto, mas não dava para perder o Baile do Simonal com Max de Castro e Wilson Simoninha, apesar da posição distante e do som abafado pela multidão em plena Praça da República. O mato queimava e a segurança era razoável com a distribuição de postos policiais próximos aos principais palcos.

O cheiro dos melhores pastéis da cidade inundavam o Largo do Arouche onde Sidney Magal fez o show de sua vida para uma multidão sedenta pelos dois principais sucessos do cantor, respectivamente O Meu Sangue Ferve por Você, a abertura e Sandra Rosa Madalena, o encerramento da apresentação. O recheio passava despercebido entre os grupos de amigos que aproveitavam para dançar e se divertir. No topo de uma árvore uma mulher de meia idade dançava para o delírio de quem a fitava com os olhos. Nem o rockeiro mais enervado deixou de sorrir no show do cantor. Emos, Punks, Gays e outros grupos misturados disputavam espaço nos pontos quase sempre lotados do centro.

Ao final a extinção da cerveja e a migração para o vinho de garrafa de plástico, substância tão doce quanto um copo de suco de uva. Mas nem por isso a tristeza, talvez acompanhado de amigos não tenha percebido os defeitos da Virada, apenas suas qualidades. A madrugada bonita e povoada do centro era um contraste entre regiões desertas em noites cotidianas, perigosas e tão sujas quanto as observadas no evento. As toneladas de lixo eram inevitáveis e com elas o mal-cheiro característico. Mas é agradável saber que compartilhamos tanta alegria e cultura em um único final de semana. A maioria bateu palmas naquilo que por cima pareceu a grande virada do nosso principal evento cultural.

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