Das passarelas de Milão ao tapete vermelho de Hollywood. Eis o caminho de Tom Ford, nome forte no mundo da moda que estréia como diretor em A Single Man. A transição das passarelas ao cinema é comum na figura de modelos que embelezam fotogramas, mas que algumas vezes pecam pela formação dramática. Talvez a exceção seja Vincent Gallo, modelo com passagens como ator e diretor. Polêmico, Gallo recebeu coroas com Buffalo 66 para em seguida ser massacrado por The Brown Bunny. Mas diferente do apresentado, Ford não é modelo mas estilista, posição na moda que tem certas semelhanças com a figura do diretor de cinema.

Nada mais estimulante a Ford, homossexual assumido, do que um roteiro baseado no romance de Christopher Isherwood. A Single Man trata do desastre na vida de George (Colin Firth) ao perder o companheiro e amante (Matthew Goode) em um acidente de carro. A tragédia altera a rotina do professor inglês, residente em uma América temerosa  frente a um possível ataque nuclear. O contexto histórico é bem retratado no diálogo do professor com sua turma ou com o colega de profissão que descreve seu alojamento anti-bomba. A Guerra Fria e o terror que a envolvem servem de paralelo para a dificuldade e medo que George sente em se expor. O vizinho sabe que George é homossexual assim como seu aluno o descobre posteriormente,  mas tudo é bem disfarçado, velado durante o filme.

Há uma certa poesia na produção, seja pela trilha-sonora, narração em off ou imagens em câmera lenta. George sofre, o filme acompanha os preparativos para um suicidio e a mudanças de suas ações por conta do ato final. O professor cumprimenta a empregada, elogia a secretária e faz críticas ao sistema em plena aula mas as transformações não passam pelo próprio que permanece no “armário” durante todo o filme. O roteiro é bom, mas sofre com a montagem e as diversas transições de ângulo que ocorrem em algumas cenas. Cortes rápidos e muitas vezes desnecessários que podem incomodar e atrapalhar o ritmo da ação.

Tony Scott usa e abusa do recurso em seus filmes, a diferença é que Ford tinha uma boa história para desenvolver. O ping pong é observado nos diálogos, a transição de planos aparece bem no detalhamento da beleza do outro – primeiro plano, primeirissimo plano, plano de detalhe. Se a montagem não faz jus a qualidade da produção o mesmo não pode ser dito do figurino. Óbvio, mas grandioso, Ford alinhou vestidos e ternos impecavelmente. A cena da garota de vestido e sapatos azuis é das mais belas envolvendo figurino e fotografia. Não por acaso Ford salvou a Gucci da falência tornando-se um dos maiores estilistas/empresários do mercado.

O cast também foi bem escolhido com um Colin Firth em destaque e uma Juliane Moore linda no retrato de época. Ford conseguiu levar o glamour das peças de roupa para o cinema, seu filme desfila pela alta sociedade americana do pós-guerra com muita pompa. O diretor iniciante superou bem as expectativas ao maquiar o belo. A dúvida é se ao abordar o feio Tom alcance a mesma proeza vista em sua representação erudita. Que seu sobrenome inspire boas obras!

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Christopher Isherwood

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