O pesquisador norte-americano Henry Giroux diria que a Disney possui uma “fórmula mágica” pela qual propaga inúmeras ideologias. Ao assistir a pré-estréia de Alice no País das Maravilhas, último filme de Tim Burton, percebi que o estúdio fez o que mais temia, amenizou mais um clássico da literatura. Lewis Carroll escreveu Alice na segunda metade do século XIX, o submundo surreal, seus caracteres e a protagonista feminina são elementos que transcendem a época assim como fora Madame Bovary para Gustave Flaubert. A partir do que assisti na tela colossal do Imax concluo, desde já, que Alice e sua Wonderland não são tão sombrias quanto esperava.

O filme começa como um drama de época, a protagonista e a mãe viajam para o noivado da primeira. Contudo Alice demonstra os primeiros sinais de  uma personalidade forte ao discutir a tradição dos trajes com a própria mãe. O prólogo inicial  passará pelo encontro entre a personagem principal e seu pretendente, sujeito pomposo a procura de uma mulher acéfala, tímido ao ser abandonado durante o pedido de noivado. Eis o ínicio do filme de Tim Burton, quando Alice atraída pelo coelho branco cai no buraco e passa a uma dimensão que a mesma define como um sonho. Paralela à imersão de Alice temos a do espectador no universo estilizado do diretor.

Alice não lembra de sua primeira passagem pelo submundo, sendo nomeada como “The Wrong Alice” pelos demais caracteres ,  tal definição “wrong” ajuda a moça a construir seu caminho em um destino pré-concebido. Sabemos o desfecho da história pelo óraculo, ponto que mata qualquer surpresa narrativa. Entre os personagens, os gêmeos gorduchos Tweedledee e Tweedledum, um rato, um passáro e o já citado coelho, uma típica reunião de Mickey e seus amigos. Completando o grupo a sábia lagarta azul, figura aparentemente extraída da animação Vida de Inseto da parceria do estúdio com a Pixar. Porém os dois animais mais engraçados são a lebre, figura quase anárquica e o gato que flutua em diversas cenas, fruto de efeitos especiais bem ajustados.

O grupo de atores é formado por Johnny Depp, muito bem caracterizado como Chapeleiro Maluco; Helena Bonham Carter que mostra mais uma vez que não é apenas a esposa do diretor; Anne Hathaway, a própria Cinderela albina que valsa em todas as tomadas e Mia Wasikowska, uma Alice sem sal nem pimenta. Todos mergulhados no novo universo de Burton, ambiente feminista, com a liderança das Rainhas Vermelha e Branca, enquanto o destino do reinado permanece na bainha de Alice. Porém se as personagens são femininas, os cargos e as decisões tomadas parecem totalmente masculinos, fato evidente no discurso da Rainha Vermelha e sua sede por cabeças cortadas, uma herança medieval e totalitária.

Conheço uma Alice loira, forte e guerreira, chama-se Beatrix Kiddo (Uma Thurman) e está em Kill Bill de Quentin Tarantino.  Por que? Talvez esperasse mais de Burton além dos rostos pálidos e a sempre espetacular direção de arte. Não houve sangue como no anterior Sweeney Todd. Não houve fantasia como no anterior Big Fish. Não houve escuridão como no anterior A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça. Não houve humor negro como no anterior Marte Ataca. Houve uma porção de animais falantes que poderiam estar nas Crônicas de Nárnia, produção com o mesmo invólucro, politicamente correto do católico  C.S. Lewis. Melhor Burton re-pensar sua fase Disney, estúdio onde teve sua primeira oportunidade com a animação Vincent. Não há dúvidas que o diretor tem mais a oferecer do que apenas uma estética esbranquiçada.

Prefiro encerrar com a pergunta lançada pelo filme – Por que um corvo se parece com uma escrivaninha?

Assista ao trailer de Alice no País das Maravilhas

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